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(Despojos de Tiradentes. Cândido Portinari. Colégio
de Cataguases, MG.
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Pedaços do corpo de
Tiradentes foram pendurados em locais públicos para
atemorizar o povo. No Rio e em Minas, o governo fez realizar
festas pelo malogro da conspiração.
O declínio da mineração,
a crescente opressão de Portugal e a influência
das idéias iluministas motivaram o nascimento do primeiro
movimento de libertação nacional (Inconfidência
Mineira) formado por uma elite de Minas Gerais interessada
em livrar-se do pagamento de impostos e por um patriota que
sonhava com a independência do Brasil:
Joaquim José da Silva Xavier.
Traídos por um coronel farejador (o
nome do calhorda não merece menção),
os participantes do movimento foram presos e condenados. Tiradentes
(o mais pobre e o único a assumir a culpa) recebeu
a pena mais grave: morte e esquartejamento do seu corpo. Sua
cabeça (levada num barril de sal para Vila Rica) ficou
espetada no alto de um poste em frente ao Paço Municipal.
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Figs. 105. Obra de Antônio Parreiras. Museu Mariano
Procópio, Juiz de Fora/M).

Figs. 106. Obra de Alberto da Veiga Guiguard).

Fig. 107 (Autran, Vila Militar/Rio. |
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A
Inconfidência Mineira (nome escolhido por muitos historiadores
baseados no fato de que os mineiros estavam negando lealdade
a Portugal) apresenta vários pontos nebulosos: a)
O conhecimento dos fatos relacionados com o malogrado movimento(1)
fundamenta-se basicamente nos interrogatórios dos acusados,
feitos pelas autoridades portuguesas. Como os investigadores
(vindos de Portugal) estavam cumprindo ordens da Corte(2),
que a todo custo queria abafar movimentos anti-coloniais,
é possível que tenha ocorrido manipulação
do teor do processo. b) Um dos acusados,
(o advogado Cláudio Manuel da Costa, a quem caberia
redigir as leis do Brasil independente), foi encontrado enforcado,
em circunstâncias não esclarecidas(3),
após dois dias de intensos interrogatórios).
c) Aos réus foi negado o direito de
constituir advogados de defesa. Para manter-se a aparência
de legalidade, nomeou-se apenas "um curador dos acusados”(4)
para um volumoso processo com 28 pronunciados. d)
A Coroa impôs penas mais leves aos inconfidentes(5)
de maior atividade econômica, mantendo livres os grandes
mineradores. e) Os réus padres, em
número de cinco, foram sentenciados em segredo(6).
Num Acordão “especial” para os réus
eclesiásticos ficou acertado que eles seriam levados
para Portugal e confinados em conventos urbanos. Três
deles voltaram ao Brasil e recuperaram seus bens. f)
Com os acusados foram apreendidos cerca de 1400 livros. Isso
mostra o alto grau de cultura humanística dos conjurados(7).
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Fig.108 (D. Maria I, a rainha louca, mandou
cortar e salgar o corpo de Tiradentes). |
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No patíbulo, antes
da execução de Tiradentes, usou da palavra o
frei José Jesus Maria do Destérro. O sermão
do religioso cobria de elogios a rainha de Portugal, D. Maria
I (8), “tão
amável, tão pia, tão clemente...”.
Em nome da “piedosa” soberana, o corpo de Tiradentes
foi repartido em quatro quartos. Sua família foi declarada
infame, sua casa destruída e o terreno.
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Fig. 109 (Busto de Tiradentes. Décio
Vilares. Museu Histórico Nacional/Rio).
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As infâmias póstumas
e a profanação do cadáver de Tiradentes
não silenciaram suas idéias. Logo depois (1798),
nascia a Conjuração Baiana integrada por homens
cultos e também gente humilde. Desta vez, a repressão
mandou trucidar dois alfaiates e dois soldados (todos de origem
humilde).
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Fig. 110 (Obra de João Batista da Costa. Museu Histórico
Nacional) |
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Nestas três
imagens, Tiradentes é retratado em feições
parecidas com as de Jesus Cristo.
Tiradentes ficou completamente esquecido até o final
da Monarquia. Afinal, seu trucidamento partiu de uma ordem
da bisavó de D. Pedro II. Na República, a imagem
do mártir foi recuperada. A elite republicana (sem
respaldo popular) precisava de um herói nacional que
se identificasse com o povo. Em 1890, a data 21 de abril foi
declarada feriado nacional. Na pintura, surgiram as representações
de Tiradentes todas parecidas com a de Jesus Cristo(9).
Em vida Tiradentes nunca foi retratado, mas consta que não
usava barbas nem cabelos longos. Morreu careca, pois era costume
da época raspar a cabeça dos condenados à
forca. Num paradoxo histórico, aquele que foi preterido
na carreira militar, traído por um militar e morto
pela repressão oficial recebeu dos militares (em 1965)
o título: Patrono Cívico da Nação
Brasileira(10)
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Fig. 111 (Eduardo de Sá. Museu Histórico Nacional).
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Fig. 112 (Rafael Falco. Congresso Nacional/DF). |
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NOTAS:
- O movimento foi denunciado por Joaquim Silvério
dos Reis certo de que teria como recompensa o perdão
de uma vultosa dívida que tinha com a Fazenda
Real. Pelo "serviço" prestado, ele
obteve o perdão do seu débito, tendo-lhe
a Rainha D. Maria I concedido ainda uma pensão
anual, o fôro de Fidalgo e o Hábito de
Cristo (Novo Dicionário do Brasil,
p. 195, Organização Geral do Departamento
Editorial das Edições Melhoramentos,
São Paulo, 1971)
- A "Alçada que veio de Lisboa (1790)
era composta por Desembargadores e Juízes auxiliares.
A Comissão completar-se-ia no Rio de Janeiro
por outros membros temporários (...) Há,
no Brasil, uma condenação unânime
ao sinistro episódio da repressão a
Inconfidência, em que se espezinharam os princípios
do direito criminal e em que os supostos réus
foram considerados condenados pela Metrópole
antes mesmo de fim do processo" (História
Sincera da Inconfidência Mineira, pp. 63
e 65, Donatello Grieco, Editora Record, Rio de Janeiro,
1990).
- "Outro ponto nebuloso é a morte de
Cláudio Manoel da Costa, dois dias antes de
chegarem a Vila Rica os investigadores nomeados pelo
vice-rei. O poeta havia sido interrogado pelos funcionários
do visconde em 2 de julho de 1789; no dia 4, foi encontrado
morto na Casa dos Contos. Segundo alguns historiadores,
foi assassinado por outros conspiradores que temiam
ser denunciados por ele. Outros acham que o poeta
delatou seus companheiros e, atormentado pelo remorso,
acabou suicidando-se" (Saga, A Grande História
do Brasil, Vol. 2, p. 262, Abril Cultural, São
Paulo, 1981)
- A defesa dos inconfidentes (um único advogado
para 29 réus pronunciados) coube ao Bacharel
José de Oliveira Facundes, graduado em Leis
pela Universidade de Coimbra e procurador da Santa
Casa de Misericórida. A tese geral levantada
pela defesa (desclassifcação do
crime de lesa-majestade) objetivando a suavização
das penas, vez que o Movimento "não
passou de conversação hipotética"
não foi aceita pelo batalhão de Juízes
e Desembargadores da Corte. As denúncias de
iniquidades praticadas contra os réus, os embargos
apresentados, tudo, foi rejeitado preliminarmente.
"Os juízes não se preocuparam,
sequer, em ler os 57 considerandos que compunham a
Apelação, mesmo sabendo que o advogado
só tivera meia hora para estudar os autos (...)
uma surpresa estava reservada para os réus.
A sentença seria modificada. Desde o início
do julgamento, os desembargadores da Alçada
tinham em seu poder uma Carta Régia, assinada
pela rainha em 15 de outubro de 1790, permitindo a
comutação das penas, desde que os réus
se fizessem merecedores de sua real clemência.
Uma Carta Régia assinada um ano e seis meses
antes da leitura da setença. E os desembargadores
tinham-na em mãos. Mas só a utilizaram
depois de humilhar, ao máximo, os revolucionários.
Eles os queriam ver de joelhos, clamando por perdão,
pedindo clemência. (Tiradentes, Biblioteca
de História, Grandes personagens de todos os
tempos, p. 88, Coordenação de Roland
Corbisier, Editoria Três, Rio de Janeiro, 1973)
- Todas as peças que constituem o processo
da Inconfidência Mineira (interrogatórios
dos réus, depoimentos das testemunhas, despachos
interlocutórios, sentença, apelação,
embargos e mandado de execucação de
Tiradentes) e juntadas de outros documentos (cartas
de Joaquim Silvério dos Reis diligências
empreendidas, termos de prisões e demais papéis
extraprocessuais) podem ser vistos e consultados nos
10 volumes dos Autos de Devassa da Inconfidência
Mineira, editados pelo governo de Minhas Gerais/Câmara
Federal, em edição histórica,
porém, em português moderno (obra à
disposição dos interessados na sede
do Projeto Brasil Urgente/Fortaleza-Ce).
- "O Acórdão foi emitido sem a
parte referente ao réus eclesiásticos,
conservada em sigilo por instruções
vindas da Corte, Carta Régia de 15 de outubro
de 1790" (Donatello Grieco, op. cit., 91)
- Quanto à lista completa das obras encontradas
e apreendidas em poder dos inconfidentes (livros de
Descartes, Voltaire, Montesquieu e de outros autores,
inclusive manuais de teologia e de ciências
exatas) vide "Os livros
dos inconfidentes", cap. integrante
da obra de Donatello Grieco, op. cit., pp. 36/40
- "Conhecida como a rainha louca, D. Maria I
tinha 43 anos quando subiu ao trono em 1777, sucedendo
a seu pai, D. José I. Após a morte do
seu marido, passou a apresentar sintomas de insanidade
mental; em fevereiro de 1792, uma junta médica
declarou-a completamente louca, e D. Maria I foi afastada
do governo. A regência foi entregue a seu filho,
D. João que, em 1818, se tornaria rei de Portugal,
Brasil e Algarves, com o título de D. João
VI" (Saga, A grande história do Brail,
vol. 2, p. 210, Abril Cultural, São Paulo,
1981)
- O escritor Sérgio Faraco em seu livro Tiradentes,
a Alguma Verdade (Ainda que tardia), diz que o povo
se habituou "a admirar a figura de um homem de
cabelos longso e escuros, barba de muitos meses, como
sendo a de Tiradentes, e que "essa parecença
do herói mineiro com a imagem popular de Jesus
Cristo tem merecido o irrestrito aval do poder público",
vindo o Governo ferderal a institucionalizar essa
efígie em 1966, perpetuando a "conotação
bíblica". E diz também que no dia
de sua execução, Tiradentes não
trazia barba nem mesmo cabelos, porque, às
quatro horas da manhã de 21 de abril, "à
luz de um candeeiro de azeite, o barbeiro da cadeia
raspou-lhe a cabeça até o couro e uma
curtíssima barba de semana" (Donatello
Grieco, op. cit., p. 101)
- Lei nº 4897, de 9 de dezembro de 1965, sancionada
pelo presidente Castelo Branco (publicada no Diário
Oficial da União, Seção 1, p.
12755, no dia 13/12/65).
FILMOGRAFIA:
Os Inconfidentes. 1972. Direção:
Joaquim Pedro de Andrade. Brasil fim do século
XVIII. O filme narra a história da Inconfidência
Mineira, vista através do comportamento dos idealizadores
do movimento. (O que o expectador informado logo pode
ver, é que, embora a fala dos personagens se
baseie em textos literários da época e
o cenário de fundo sejam Ouro Preto, o filme
faz claras referências ao período militar
do governo Médici e à postura de alguns
setores da esquerda, desvinculados da realidade da população).
Comentários de Antônio Rebouças
Falcão para o livro História do Brasil,
1: Colônia, de Alfredo Boulos Júnior.
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