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D. Pedro II. Obra de Pedro Américo. Museu Imperial.
Petrópolis ).
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Um grupo de artistas palacianos (Vitor Meireles,
Pedro Américo e outros) voltava-se sobremaneira para
temas históricos e aspectos da vida social na Corte.
Em troca, o Imperador oferecia as tetas da monarquia e viagens
à Paris.
Durante 49 anos, D. Pedro governou o Brasil
rodeado de artistas e intelectuais. Contudo, o Imperrador
erudito que recebia com freqüência cientistas,
escritores, poetas e músicos, nada faz para diminuir
o alto índice de analfabetismo no país.
A Carta Imperial, em vigor até 1889,
declarava que todos os cidadães brasileiros,
tinham acesso ao ensino primário. No entanto,
a educação pública era privilégio
de uma minoria e mais de 80% da população permanecia
miserável e analfabeta.
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Fig. 181 (Óleo de Vitor Meireles. Museu de Arte de
São Paulo).
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LITERATURA
No panorama literário brasileiro do
século XIX, situam-se o Romantismo e o Realismo/Naturalismo.
O primeiro - com métodos e idéias importadas
da França - segue o caminho do subjetivismo e expressa-se
no romance urbano (açucaradas estórias de amores
impossíveis ou aventuras inverossímeis ambientadas
na sociedade urbana), no romance regional ou sertanejo (descrição
de tipos brasileiros rurais característicos), no romance
histórico (reconstituição e valorização
do passado histórico) e no romance indianista (exaltação
do índio como herói nacional). O
escritor cearense José de Alencar - cuja obra engloba
as quatro tendências acima mencionadas - revela (no
caso da temática indígena) o lado hipócrita
do político brasileiro: enquanto literato cercou-se
do índio para ganhar fama; porém, no Poder (Deputado
por quatro legislaturas e Ministro pelo Gabinete Conservador)
nada fez pelo irmãozinho da floresta. O
Realismo (nele contido o Naturalismo) - também trazido
da Europa, sob forte influência do cientificismo da
época - contrapõe-se ao idealismo romântico
e ruma para a descrição objetiva e racional
da realidade. O seu maior expoente no Brasil foi o escritor
carioca Machado de Assis. A obra machadiana - construída
com extremo rigor e fina ironia - retrata os preconceitos
e as atitudes mesquinhas de pessoas da sociedade brasileira
do final do Império e início da República.
A narrativa naturalista - marcada pela análise social
de grupos humanos marginalizados - aparece, com mais destaque,
no romance O Cortiço, do maranhense Aluísio
Azevedo. O conteúdo dessa obra (a vida da plebe carioca
numa habitação coletiva) legítima o romance
de movimentação de massa, o primeiro e o único
em toda a Monarquia.
EDUCAÇÃO
O ensino brasileiro ou Escolas de Primeiras
Letras- a cargo dos Governos Provinciais - foi praticamente
ignorado pelas autoridades brasileiras, durante todo o período
imperial. O total abandono da instrução pública
oficial cedia lugar às instituições educativas
das ordens religiosas (tal qual nos tempos coloniais), ficando
nas mãos da Igreja Católica a primazia na formação
dos futuros líderes do país. No Rio de Janeiro,
o elitista e fechado Colégio D. Pedro II, era frequentado
apenas pelos jovens das famílias ricas, os quais eram
privilegiados com a dispensa de seleção (os
chamados Exames Preparatórios) para ingresso nas escolas
superiores. O ensino superior limitava-se às Academias
Militares, Escolas de Medicina de Salvador e do Rio de Janeiro
(iniciadas no período joanino) e às Faculdades
de Direito de Olinda e de São Paulo (fundadas em 1827).
Das salas de aulas dos cursos jurídicos (também
locais de saraus e boêmia) saíram quase todos
os políticos brasileiros (daí o discurso vazio
e o blá-blá-blá) e toda a intelectualidade
do Segundo Reinado. Enquanto a primeira Universidade dos EUA
data de 1638, no Brasil, duas tentativas de fundação
de uma Universidade Brasileira (a primeira em 1848 e a segunda
em 1881) foram barradas. A mentalidade agroexportadora das
classes dominantes e a importação de serviços
de firmas inglesas (estas responsáveis pela realização
de quase todas as obras de engenharia no período monárquico)
atrasaram a criação de Cursos de Engenharia
no Brasil. Deficientes, esses cursos apareceram (no Rio de
Janeiro, em Minas e São Paulo) somente nas últimas
décadas do Império e nos primeiros anos da República.
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Fig. 182 (Quadro de Rodolfo Amoedo. Museu
Nacional de Belas-Artes, Rio).
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HISTORIOGRAFIA
Uma Nação diferente
e suntuosa (única monarquia no continente americano),
unificada e ordeira (sem antagonismos e todos unidos pelo
sentimento de brasilidade), centralizada e unitária
(sob o comando de um monarca magnâmico e sábio).
Eis a configuração ideal da verdadeira
História do Brasil, adequada à conveniência
das classes dominantes. Para construir essa imagem, D. Pedro
II recrutou vários intelectuais do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro (fundado em 1838) e instituiu
prêmios, com viagens à Europa, para os autores
dos melhores trabalhos apresentados. O primeiro recrutado
- Manuel Pereira da Silva - preparou uma volumosa obra, captando
exatamente o período de 1808 a 1825 (chegada do avô
do Imperador até o reconhecimento formal da Independência)
para demonstrar que a Nação nasceu
e cresceu nas mãos da Família Imperial. No conteúdo
da obra, o autor oculta fatos sociais ligados à Independência
e enfatiza que a separação política de
Portugal foi uma doaçãodo governo
português. O título da obra envaidece: Fundação
do Império Brasileiro. Outro intelectual amestrado
- Francisco Adolfo Varnhagen - cuidou da descrição
do processo de gestação, crescimento e amadurecimento
da Nação com sua História
Geral do Brasil, deixando implícito que a fase do amadurecimentocoincidia
com o Império. Essa obra exalta a missão
civilizadora portuguesa, destaca o elemento indígena
na etnia brasileira, justifica o extermínio de índios,
defende o regime escravocrata, minimiza a importância
dos movimentos emancipacionistas e omite várias sedições
e lutas do povo brasileiro. Cumprida a missão, Varnhagem
entra no seleto clube da nobreza imperial (primeiro com o
título de Barão e depois de Visconde) e torna-se
o pai da historiografia oficial brasileira.
PINTURA
Quatro pintores (Vitor Meireles, Pedro Américo,
Almeida Júnior e Benedito Calixto) ocuparam posição
de relevo na pintura brasileira da segunda metade do século
XIX. Considerados artistas de ateliês oficiais - todos
mamavam nas tetas do Governo Imperial - esses pintores retratavam,
preferencialmente, familiares do Imperador, políticos
da Corte, batalhas militares e a figura do índio como
símbolo da pátria. Por não interessar
ao Regime, o negro ficou fora dessa temática. Duas
grandes obras de fundo histórico (A Primeira Missa
do Brasil, de Vitor Meireles e a Batalha do Avaí, de
Pedro Américo) merecem dois pequenos comentários:
1) Ao elaborar sua tela, inspirado no livro indianista A Confederação
dos Tamoios, Vitor Meireles (embora equivocado na datação
da obra, trata-se da segunda e não da primeira missa)
provavelmente tinha conhecimento da Carta de Caminha, vez
que retrata importantes detalhes ali narrados; 2) Na representação
da vitoriosa batalha comandada por Caxias, Pedro Américo
novamente recorre a fraudes (v. figura 123) copiando detalhes
de batalhas francesas. Segundo críticos da sua época,
nessa tela (hoje exibida no Museu Nacional de Belas-Artes)
os detalhes justapostos, separadamente, identificam obras
de vários autores franceses.
FILOSOFIA
No século XIX, a filosofia no Brasil girava exclusivamente em torno do pensamento filosófico em voga na Europa. Os poucos pensadores brasileiros da época agrupavam-se nas correntes do (a) ecletismo (b) positivismo ou (c) evolucionismo. Doutrinariamente, aqueles que professavam o ecletismo ou o positivismo dedicavam-se à tarefa e construir uma “Nação” brasileira. Os primeiros justificando em termos teóricos a conciliação entre as elites em torno do Imperador e os segundos, forjando um modelo de identidade nacional baseada na ordem e na ciência. Os filiados à terceira corrente ( tidos como meros copiadores das doutrinas alemãs ) apenasmente combatiam as propostas “oficiais”. Em geral, esses “filósofos” ( na maioria, bacharéis, médicos, professores e militares, oriundos das escolas superiores existentes ) alimentavam-se de obras de autores estrangeiros, estudavam com os olhos voltados para a Europa, divulgavam idéias confusas e, aqui acolá, produziam resumos de filosofias, comentadas com opiniões alheias. A pobreza da nossa cultura filosófica ( ontem e hoje ) pode ser associada à ( 1 ) mocidade da civilização brasileira, cujo povo não cessou ainda de lutar para vencer meios materiais de vida, fato que impossibilita o exercício da contemplação e da reflexão como condições essenciais de filosofar; ( 2 ) carência de escolas especializadas no ensino da Filosofia e conseqüente autodidatismo dos nossos pensadores; e ( 3 ) descuriosidade geral do povo brasileiro pelos problemas de ordem metafísica.
( 1 , 2 , 3, 4 , 5 , 6, 7 , 8 e 9 )
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Figs. 183 e 184 (Museu Mariano Procópio).
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NOTAS:
- Por volta de 1890, a população da cidade do Rio de Janeiro chegava a 522.000 habitantes. Moradia era o grande tormento das camadas pobres. As famílias pobres eram obrigadas a viver amontoadas em habitações coletivas (cortiços), cujas condições de higiene eram tão precárias que já no começo do século XX o cronista Luís Edmundo as classificou de “pestilenciais”. Descritas por Aluísio de Azevedo no romance O Cortiço, tais habitações eram alugadas, rendendo enormes lucros a seus proprietários. Estes últimos, aliás, nem sempre eram comerciantes portugueses, como a personagem João Romão, criada por Azevedo; entre eles havia também aristocratas e homens da corte: o conde D'Eu (genro de D. Pedro II), por exemplo, era dono de um imenso cortiço, conhecido como Cabeça de Porco, onde moravam mais de 4 000 pessoas (Saga, A Grande História do Brasil, vol. 4, p. 129, Abril Cultural, São Paulo, 1981).
- A história das idéias do Segundo Reinado foi marcada pelo esforço oficial em construir uma idéia de “Nação” adequada à convivência das elites agrárias e mercantis. Parte importante desse esforço foi representada pela atividade do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (criado em 1838), cujos pensadores tentaram elaborar a “verdadeira” História do Brasil (Saga, op.cit., 140).
- Criado em 1838, o Instituto deveria instaurar, enfim, o semióforo “Brasil”, oferecendo ao país independente um passado glorioso e um futuro promissor, com o que legitimaria o poder do imperador (...) Era de sua responsabilidade demonstrar que a vasta extensão do território e suas diferenças regionais exigiam como regime político a monarquia constitucional, tendo a unidade figurada no imperador. E era tarefa sua prover a história com os elementos que garantiam um destino glorioso à nação. A realização dessa história luso-brasileira e imperial coube àquele que é considerado o fundador da historiografia brasileira, Francisco Adolpho de Varnhagem, com a História Geral do Brasil, publicada entre 1854 e 1857 (Brasil, mito fundador e sociedade autoritária, p. 50, Marilena Chauí, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 1996).
- Data de 1871 a Batalha do Campo Grande, sua primeira composição militar, e de 1877 a Batalha do Avaí, pintada em Florença, na biblioteca do convento da Santíssima Anunciata, uma enorme pintura cuja apresentação contou com a presença de D. Pedro II, num acontecimento noticiado nos mais importantes jornais europeus. Quando a exposição chegou ao Brasil, Pedro Américo foi vítima de autêntico bombardeio da parte da crítica nacional, que considerou a obra medíocre e ainda o acusou de plagiar a Batalha de Monte Bello, de Gustave Doré (Dicionário do Brasil Imperial, p. 571, Ronaldo Vainfas / Direção, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2002).
- Observa Modestino Kanto que “Pedro Américo foi para a Europa, lá viveu quase todo o tempo e nos deixou uma obra onde os críticos da sua época apontavam cópias e imitações dos grandes mestres pintores de batalhas de França. O velho Bethencourt da Silva dizia que a Batalha do Avaí podia bem ser partida em pedaços rigorosamente caracterizados, definidos com precisão, dando-se cada um ao seu dono.” (Saga, idem, p. 123).
- Quase meio século depois da criação das faculdades de Direito e Medicina surgiram os cursos de Engenharia. Essa defasagem resultou, entre outros fatores, do funcionamento, no Brasil, de firmas inglesas que utilizavam seu próprio pessoal técnico. Assim, somente em 1874 é que se criou a Politécnica do Rio de Janeiro, seguida, em 1876, pela Escola de Minas de Ouro Preto e, em 1894, pela Politécnica de São Paulo (Saga, ibidem, p. 155).
- Atraído pela política, José Martiniano de Alencar foi eleito Deputado Provinciano pelo Ceará por quatro legislaturas. Entre 1868 e 1870 exerceu o cargo de Ministro da Justiça demitindo-se porque o Imperador o preteriu na vaga de Senador. Ao contrário de seu pai e de sua avó (ambos participantes de movimentos revolucionários), o escritor-político era filiado aos “conservadores”, defendendo posições que muitos escritores combatiam veementemente (Novo Dicionário da História do Brasil, pp. 39/40, Departamento Editorial das Edições Melhoramentos, São Paulo, 1971).
- Apesar da nossa reconhecida capacidade intelectual, comprovada na arte, na literatura, nas ciências e em muitos outros setores da cultura humana, nós brasileiros não temos, entretanto, pensamento filosófico criativo. Nossa atividade filosófica consiste quase que exclusivamente em assimilar o pensamento filosófico criado na Europa e aqui glosá-lo à luz das condições peculiares de nosso povo (Noções de Filosofia, p. 122, Francisco Uchoa de Albuquerque, Imprensa Universitária do Ceará, Fortaleza, 1966).
- Um dos componentes do caráter nacional brasileiro (plasmado pelos ideológicos do Segundo Reinado) foi a vocação pacífico do povo brasileiro. Essa “verdade estabelecida” (utilíssima às classes dominantes) segue a moldura oficial da história escrita pelos vencedores (com Cabral rezando, Pedro I gritando, Isabel abolicionando, Caxias pacificando, Pedro II filosofando) sem considerar que o povo brasileiro sempre lutou (e continua lutando) por liberdade e justiça social. Neste outro lado da História (sem monumentos, estátuas ou condecorações) estão muitas revoltas, massacres e traições. Entre elas, a resistência indígena contra o invasor de suas terras; a heróica luta dos negros de Palmares; de Cabanagem vitimando cerca de 40% da população da Província do Pará; a luta traída de Porongos, em que os comandantes “adversários” (Caxias e Canabarro), numa batalha “arranjada”, colocaram cerca de dois mil negros frente a frente para se matarem. Séculos de batalhas cruentas. No passado, o extermínio de milhões de índios, a exploração do trabalho escravo e o afastamento do povo das decisões nacionais. No presente, a manipulação da imensa população miserável do país (Projeto Brasil Urgente)
FILMOGRAFIA:
O Cortiço. 1977. Direção: Francisco Ramalho Jr. Adaptação do Romance Naturalista de Aluísio Azevedo, Rio de Janeiro. Últimas décadas do século XIX. O filme enfoca a vida num cortiço. Abre espaço para discussão e reflexão sobre a miséria e a exclusão nas atuais favelas cariocas (brasileiras).
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