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CHEGAM OS HOLANDESES




Quadro de Frans Post. Museu do Estado Recife/PE.

 

Desde o início da colonização portuguesa, a Holanda refinava e distribuía o açúcar brasileiro no mercado europeu. Impedidos pela Espanha de controlar esse fabuloso negócio, os holandeses invadiram a região que mais produzia açúcar no mundo: o nordeste brasileiro.

A primeira invasão holandesa no Brasil ocorreu em Salvador (em 1624) com a ocupação da cidade e sua retomada no ano seguinte por uma esquadra luso-espanhola. Depois, em 1630, os holandeses tomaram Pernambuco e, dessa base, alargaram suas conquistas para o norte e para o sul, dominando toda a região açucareira do nordeste (exceto Bahia) até o ano de 1654, quando foram definitivamente expulsos.


Logo depois da expulsão, os holandeses passaram a produzir açúcar nas Antilhas (América Central) e, pouco tempo depois, dominavam novamente o mercado consumidor da Europa. Sem condições de competir, a lavoura açucareira brasileira entra em decadência. Outra constatação: índios e negros (que lutaram ao lado dos colonos em defesa de seus engenhos) continuaram sendo perseguidos e escravizados.



 



Fig. 48 (Guerreiro holandês. Museu Histórico Nacional / RJ).

 

Uma frota holandesa, composta de 26 navios e 500 canhões, invadiu Salvador, em maio de 1624. Após um ano de lutas (empreendidas por colonos, negros e índios) e diante do bloqueio maritímo imposto por uma esquadra luso-espanhola, os invasores, sitiados, assinaram a capitulação.

 

 


 

Fig. 49 (Efígie do corsário Pieter Heyn. Museu do Açúcar. Recife / PE).

 

Pieter Heyn, apoiado pela Holanda, assaltou e saqueou vários navios portugueses na costa do Brasil. Esteve também no Caribe, onde conseguiu muito ouro e prata saqueando galeões espanhóis. Com o produto desses crimes, foi possível financiar uma segunda invasão ao Brasil.

 


 


 

Fig. 50 (Arma do invasor. Museu do Estado. Recife / PE).

 

Com uma poderosa armada, 70 navios e mais de mil canhões, os holandeses atacaram e ocuparam as vilas de Olinda e Recife. Parte da população dessas duas cidades, impossibilitada de enfrentar o invasor, retirou-se para a zona rural, onde começou uma longa resistência.

 

 

 

 

 


 

Fig. 51 (Matias de Albuquerque. Autor desconhecido. Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco).

 

Para organizar a resistência brasileira, o Governador Matias de Albuquerque estabeleceu-se no Arraial do Bom Jesus. Porém, guiados por Calabar(1), profundo conhecedor da região, e auxiliados por reforços vindos da Holanda, os invasores obtiveram inúmeras vitórias,consolidando militarmente a conquista.

 

 

 

 


 

Fig. 52 (Zona de influência holandesa. Saga, A Grande História do Brasil, vol.1, Abril Cultural, 1981).

 

Além de dominar mais de mil quilômetros do litoral brasileiro, a Companhia das Índias Ocidentais(2) mantinha interesses comerciais nas Antilhas, Guiana e África. Mas era o fabuloso lucro do açúcar brasileiro que sustentava a Companhia e enchia os bolsos dos acionistas holandeses.

 

 

 


 

Fig. 53 (João Maurício de Nassau. Óleo anônimo. Coleção J. De Sousa Leão. Rio de Janeiro / RJ).

 

Recife, capital da Colônia holandesa, tornou-se a cidade mais notável da costa atlântica das Américas durante os sete anos do governo de Nassau. A Cidade Maurícia (hoje bairro de Santo Antonio) recebeu saneamento, jardins, hospitais e o primeiro observatório astronômico do Brasil.

 

 

 


 

Fig. 54 (Natureza morta, de Eckhout. Obra de Albert Eckhout. Museu Nacioinal da Dinamarca ).

 

Além de administrador competente, Nassau(3) era um grande admirador das ciências e das artes. Com ele, vieram para o Brasil médicos, arquitetos, professores, poetas, artífices e pintores famosos, como o paisagista Frans Post ( o primeiro a fixar em sua arte aspectos da vida tropical) e Albert Eckhout (discípulo de Rembrandt), autor de extraordinárias naturezas-mortas. Com toda essa gente letrada, Nassau (ou Príncipe Nassau, como vaidosamente gostava de ser chamado) planejava fundar uma universidade no Brasil, aberta a protestantes e católicos. Sua partida, em 1644, frustou o projeto(4,5).

 


 

Fig. 55 ( Índio Poti, Felipe Camarão. Autor desconhecido. Biografia de Personalidades Célebres, de Carolina Rennó Ribeiro de Oliveira, Editora Lisa, 1990).

 

A nova administração holandesa proibiu a liberdade religiosa, aumentou os impostos e passou a confiscar bens (terras, engenhos, escravos e gado) dos colonos que não conseguiam saldar suas dívdas. Dai surgiu um movimento (no qual foi aproveitado um grande contigente indígena chefiado por Felipe Camarão) para expulsar os holandeses do Brasil(6).

 

 

 

 


 

Fig. 56 (Henrique Dias. Quadro de Baltasar da Camara. Arquivo Público do Recife /PE).

 

Filho de escravos libertos, este crioulo (e sua gente humilde) lutou bravamente na guerra contra os holandeses. Como “recompensa” as autoridades portuguesas outorgaram-lhe, entre outras mercês, o pomposo (e enganoso) título: “Governador das Tropas de Crioulos, Negros e Mulatos da Guerra de Pernambuco”.

 

 

 


 

 

NOTAS:

  1. Capturado em julho de 1634, Domingos Fernandes Calabar foi torturado e enfocado. Calabar passou para a historiografia brasileira como protótipo de traidor da causa portuguesa. O historiador Mário Schmidt, lembrando que o Brasil, à época, estava sob o domínio da Espanha, questiona: quem Calabar traiu, Portugal, Brasil ou Espanha? A peça teatral Calabar (1973), de Ruy Guerra e Chico Buarque (proibida pelo regime militar de 1964/85), levanta outro questionamento similar: quem possui o direito de definir o que é traição, o opressor ou o oprimido? ( Nova História Critica do Brasil, 500 anos de história malcontada, p. 64, Mario Schmidt, Editora Nova Geração, São Paulo, 1998).



  2. “Formada com capitais do Estado e de financistas particulares a companhia teria como seus alvos principais a ocupação das zonas de produção açucareira na América portuguesa e o controle do suprimento de escravos” (Boris Fausto, citado por Marina Gusmão de Mendonça e Marcos cordeiro Pires in Formação Econômica do Brasil, p. 75, Editora Thompson, São Paulo, 2002).




  3. “Nassau soube conviver com os colonos católicos, autorizando construções de igrejas e respeitando seus dias sagrados. Promoveu também construções de palácios, pontes, além de trazer cientistas europeus com o objetivo de estudar a terra tropical para melhor dominar as diferenças geográficas e econômicas, tornando mais eficiente a exploração do Brasil” ( História do Brasil, p. 15, Clarence Jose de Matos e César A. Nunes, Editora Nova Cultural, São Paulo, 1994).




  4. “O mito de um esplêndido Brasil holandês surgiu graças ao governo de Nassau, muito superior à rudeza lusa de até então. Porém, como notou o historiador Boris Fausto, “Nassau representava apenas uma tendência e a Cia. das Índias Ocidentais outra, mais próxima do estilo do empreendimento colonial luso”. Na verdade, basta analisar o que se passou nas demais colônias holandesas (...) para concluir que, sem Nassau, o Brasil holandês dificilmente teria um destino fulgurante. Além do mais, como observou o professor Gonsalves de Mello, “os holandeses não se tinham apoderado do Brasil com a intenção de o colonizar (...) de para aqui se transferir com as famílias e estabelecer um renovo da pátria: movia-os sobretudo o interesse mercantil”. Quando os grandes lucros prometidos pelo açúcar minguaram, os holandeses preferiram abrir mão de suas conquistas“ ( História do Brasil, p. 64, Eduardo Bueno/Projeto Editorial, Zero Hora/ RBS Jornal).




  5. “Em suma, o que mudava era que os holandeses eram mais eficazes do que os portugueses na exploração do Brasil. Porque continuávamos uma colônia de exploração” (Mario Schmidt, op. cit, p. 65).




  6. “A Inglaterra, que já se impunha como nova potência marítima, serviu de intermediária nos acordos entre flamengos e lusitanos. Com isso, passou a influenciar Portugal, com quem estabeleceu uma aliança econômica e política. Através dessa aliança, a Inglaterra tornou-se o principal fornecedor de manufaturas inglesas às colônias portuguesas” (Clarence José de Matos e César A. Nunes, op. cit., p 16).



     

FILMOGRAFIA:

Aguirre, a cólera dos deuses. 1972. Direção: Werner Herzog (Alemanha). Crônica do imperialismo enlouquecido, que narra a tentativa impossível de conquistar a cidade mítica El Dorado, feita por uma expedição espanhola nos princípios