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REI FUJÃO




(Cerimônia do beija-mão, no reinado de João VI. Museu Histórico Nacional/RJ.

 

Premido entre a França invasora e a Inglaterra industrializada (duas potências emergentes em luta por mercados consumidores) D. João fugiu para o Brasil.

A família real, acompanhada de uma comitiva de cerca de dez mil pessoas (protegidas pela Real Marinha Britânica), desembarcou no Brasil em janeiro de 1808. Para receber a proteção do governo inglês, D. João teve que se submeter a varias exigências, as quais deixavam o Brasil totalmente debaixo das patas do Leão Britânico.

Para administrar a nova sede do governo e dar empregos aos funcionários e militares que fugiram de Portugal, o Príncipe Regente (substituindo a mãe maluca) criou e inaugurou diversas instituições públicas. Essas “festejadas” entidades ( voltadas para as classes privilegiadas) não beneficiaram em nada as camadas pobres da população brasileira.



 


Fig. 114 (D. João VI. Quadro de José Leandro de Carvalho. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro/RJ).

 

Para acomodar seus conterrâneos, D. João mandava desalojar os ocupantes das melhores residências do Rio de Janeiro. As casas escolhidas eram identificadas com as letras PR (Príncipe Regente), pintadas nas portas. O povo, ressentindo, traduzia por: “Prédio Roubado” ou “Ponha-se na Rua”(1).

 

 

 


 

Fig. 115 (Carruagem e Liteira. Obra de Henry Chamberlain).



Fig. 116 (Ilustração de Claudius. Ilustração de Claudius
Ceccon, Brasil Vivo. Editora Vozes).

 

Com a transferência da sede da Corte para o Brasil(2, 3), a estrutura administrativa oficial teve que ser remontada. Daí a criação de orgãos burocráticos ineficientes copiados de protótipos portugueses. Na lista das realizações joaninas, algumas de reconhecido valor (Escola Cirúrgica, Hospital e Banco do Brasil), não consta estabelecimentos de ensino para as camadas menos favorecidas da população. No lugar de Escolas pra alfabetizar o povo, o rei criou Teatro e Biblioteca para as elites e uma Fábrica de Pólvora e duas Academias Militares (de onde sairiam balas e repressão contra os insatisfeitos). Outra realização do rei (até hoje festejada por muitos historiadores) foi a inauguração da Imprensa Régia e com ela a autorização para o funcionamento de tipografias e a publicação de jornais, antes proibidos. Todavia, o primeiro fruto da liberdade de imprensa no Brasil (o jornal Gazeta do Rio de Janeiro) foi decepcionante: publicava apenas notícias da Corte e outras frivolidades.

 



 

Fig. 117 (Visconde de Cairu. Vieira de Campos. Associação Comercial. Salvador).

 

Este brasileiro, admirador dos ingleses, estava por trás das medidas econômicas editadas por D. João VI. Como autêntico “puxa”, escreveu a “Memória dos Benefícios Políticos do Governo do el-Rei Nosso Senhor D. João VI” e outros rasbiscos. Gostava também de copiar as idéias do economista Adam Smith.

 


 

Fig. 118 (Oficiais britânicos “protegendo” o Brasil. Reprodução. Nova História Crítica do Brasil, Mário Schmidt).

 

As aplaudidas (nem tanto) medidas “progressistas” de D. João: a) abertura dos portos brasileiros às nações amigas (extinguiu o pacto colonial, foi o nosso primeiro marco de “globalização”, porém, deixou o Brasil sob as patas do Leão Britânico); b) incentivo ás indústrias brasileiras (permitiu a intalação de fábricas no Brasil, proibidas desde 1785, mas a invasão de manufaturados ingleses e as dificuldades na importação de máquinas e equipamentos, inviabilizaram o desenvolvimento fabril do país); c) assinatura de acordos com a Inglaterra (taxas alfandegárias desfavoráveis a Portugal e privilegiadas para a Inglaterra beneficiaram o bem montado esquema comercial e industrial inglês).
(4, 5, 6, 7 e 8)


 

Fig. 119 (Bandeira idealizada pelos pernambucanos. História do Brasil, Alfredo Boulos Júnior, FTD).

 

Com crueldade, as forças de D. João VI esmagaram a Revolução Pernambucana de 1817. Nesse movimento, dois fatos chamam atenção: (1) foi a única rebelião, antes da independência, que ultrapassou a fase de conspiração e atingiu o poder e (2) os revolucionários, no poder, não acabaram com a escravidão. Resultado: dois meses depois, quando a repressão oficial atacou, os negros cruzaram os braços. Iriam eles lutar em prol de que?

 


 

Fig. 120 (Carlota Joaquina. Aquarela de Jean-Baptiste Debret. Biblioteca Municipal de São Paulo).

 

Esta senhora espanhola foi a primeira imperatriz do Brasil. Ambiciosa, pretendia conquistar e reinar sobre as colônias espanholas do Prata. Seu currículo contém traições, conspirações e até o assassinato da mulher do seu amante predileto. Odiava o Brasil (para ela “terra de negros e carrapatos”) (9).

 

 

 


 

Fig. 121 (Jean-Baptiste Debret. Thierry. Museu Imperial/ Petrópolis).

 

Pintor e desenhista francês, Debret desembarcou no Brasil em 1816, integrando a Missão Artística Francesa. Sua obra - composta de 100 pranchas e 144 ilustrações - retrata com perfeição cenas do cotidiano carioca, no primeiro quartel do século XIX. Para a História do Brasil, essa contribuição iconográfica é de extraordinário valor documental(10).

 

 


 

 

NOTAS:

  1. "A família real se aloja no palácio dos Vice-reis; o imenso séquito, nas casas de particulares, sumariamente despejados. As fachadas são marcadas com P.R. abreviatura de "Príncipe Regente " (Brasil 500 Anos, Atlas Histórico, p. 39, Bernardo Joffly, István Jancsó/Consultor, Editora Três, São Paulo, 1998).



  2. "O soberano português entendeu mais conveniente aceitar o oferecimento inglês e embarcar sobre proteção britânica para o Brasil. Conservava com isto sua corôa e títulos, mas terá cedido ao aliado inglês a sua independência e liberdade de ação. A monarquia portuguesa não será daí por diante mais que um joguete nas mãos da Inglaterra. O soberano permanecerá no Rio de Janeiro sob a guarda de uma divisão naval inglesa, aí estacionada permanentemente..." (História Econômica do Brasil, p. 128, Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense, São Paulo, 1970.



  3. "Na verdade, muito mais que na defesa da soberania lusa, a Inglaterra estava interessada em salvar seus interesses comerciais no Brasil. E, em troca da proteção conferida à esquadra real, procuraria ampliá-los, como o demonstra o ato de abertura dos portos a todas as nações amigas (leia-se Inglaterra), no início de 1808 e os tratados de 1810". (Formação Econômica do Brasil, p. 112, Marina Gurmão de Mendonça e Marcos Cordeiro Pires, Editora Thomson, São Paulo, 2002)



  4. "Importante também foi a decisão tomada logo que a Côrte chegou, no dia 1º de abril de 1808. A decisão cancelou o decreto de D. Maria I, que proibia a criação de manufaturas no Brasil, tendo sido acompanhada de um outro elimando os impostos sobre a importação de matérias-prima e a exportação. Não deram muito certo, porém. Como concorrer com os produtos ingleses que não paravam de entrar no nosso mercado? (Brasil Vivo, p. 79, Chico Alencar e outros, Editora Vozes, Petropolis, 1986).



  5. " Até a abertura dos portos, as deficiências do comércio português tinham operado com barreira protetora de uma pequena indústria local, pobre indústria artesã, é verdade, mas assim suficiente para satisfazer a uma parte do consumo interno. Esta pequena indústria não poderá sobreviver à livre concorrência estrangeira, mesmo nos mais insignificantes artigos. A qualidade, os preços, a própria moda (fator que não se deve esquecer) farão desprezar seus produtos. Tudo passa a vir do estrangeiro; até caixões de defunto, refere um conterrâneo, chegar-nos-ão da Inglaterra já estofados e prontos para serem utilizados". (Caio Prado Júnior, op. cit., p. 135).


  6. " O comércio no Brasil é um negócio da China , achavam os ingleses. E fundaram logo a Associação dos Comerciantes que Traficam para o Brasil" (Chico Alencar e outros, op. cit., 79).



  7. " Panos ingleses (linho, lã, muito algodão) vestem da elite aos escravos. Representates de 100 firmas britânicas se estabelecem no Rio (tornam-se senhores da alfândega), outros BA, PE, CE, MA, PA. Rompem o velho monopólio no comércio; vendem de panelas e carruagens a patins de gêlo e espartilhos (que as brasileiras não usam). Nas tabuletas, anunciam: "superfino, de Londres". Formam na Inglaterra (1808) a poderosa Associação dos Comerciantes que Traficam para o Brasil " (Bernardo Joffly / Instván Jancsó, op. cit., 40)



  8. Outra medida, de natureza jurídica, esticava as patas do Leão Britânico às terras brasileiras: os ingleses residentes no Brasil ganham o privilêgio da extraterritorialidade, isto é, só podem ser julgados por um juiz inglês com jurisdição criminal estabelecida no Brasil (História Administrativa e Econômica do Brasil, p. 189, Hélio de Alcântara Avellar, MEC, 1970)



  9. O assassinato da Sra. Gestrudes Angélica Pedra Leão (esposa do Comendador Fernando Carneiro Leão, um dos amantes da rainha) ocorreu em outubro de 1820, próximo à atual Praça José de Alencar, na cidade do Rio de Janeiro. O resultado do apuratório do crime foi cuidadosamente abafado pela Intendência Geral de Polícia. A populção do Rio, porém, não se deixou embair. Um segundo inquérito policial, desta vez a cargo do desembargador Albano Fragoso, foi direto na mosca: um pistoleiro de aluguel, conhecido por Orelha, confessou a autoria do crime e entregou, de bandeja, a mandante: rainha Carlota Joaquina. Ao saber do fato, D. João, com seu coração de homem bom, preparou a primeira "pizza" à moda brasileira: mandou queimar as peças do processo. Sem ter a quem recorrer, o povo carioca, presenciando as constantes "entradas" na alcova da rainha, comentava: "D. João abre os portos, D. Joaquina abre as portas" (A Côrte de D. João no Rio de Janeiro, Vol. 1, pp. 241/246, Luiz Edmundo, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1939 / vide também: A História do Brasil São Outros 500, pp. 82/84, Cláudio Viana, Editora Record, Rio de Janeiro, 2000).


  10. Todas as pranchas e ilustrações do pintor João Batista Debret podem ser vistas no Vol. 3 da obra A Côrte de D. João no Rio de Janeiro, de Luiz Edmundo / também, na obra DEBRET, todas as pranchas originais de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil , com comentários de Herculano Gomes Mathias (do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), Editora Ediouro, Rio de Janeiro, 1980 (ambas à disposição dos interessados, para consultas, na sede do Projeto Brasil Urgente/Fortaleza-Ce).

     

FILMOGRAFIA:

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. 1995. Direção: Carla Camurati. Coleção Isto É Novo cinema brasileiro. O filme, em tom caricatural, narra a história da esposa espanhola de D. João VI, que sempre detestou o Brasil. Comédia histórica bastante divertida.