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(IN)DEPENDÊNCIA DO BRASIL




Fig. 122( D.Pedro Óleo de S.R. de Sá - Museu Imperial. Petrópolis )

 

Para formalizar o reconhecimento da independência brasileira, o governo britânico exigiu que o Brasil pagasse um débito de 2 milhões de libras que Portugal devia a Inglaterra.

A Independência do Brasil, oficializada por um grito, foi resultado de um arranjo político (desprovido de mudanças sociais) preparado por um grupo de representantes das classes dominantes da época, empenhados no rompimento dos laços com a Corte Portuguesa sem mexer nas
estruturas já existentes.

Esse “arranjo” manteve a monarquia, a escravidão e o latifúndio. A grande massa da população, afastada do processo decisório, continuou na miséria. Daí o historiador Mário Schmidt afirmar que o grito “Independência ou Morte” significava: Independência para as elites e Morte para o povo.



 



Fig. 123 (O Grito do Ipiranga. Obra de Pedro Américo, Museu Paulista/SP).

 

Esta tela, pintada em 1888 por Pedro Américo, é uma imitação da Batalha de Friedland, de Ernest Meissonier (1). Para diferenciá-la da obra original, o pintor paraibano acrescentou à cena um carro de bois e uma choça. O “produto” final sairia bem diferente da realidade histórica: quando encontrou os dois mensageiros da Corte, D. Pedro não usava roupa de gala, montava uma prosaica mula e estava acompanhado apenas da guarda de honra e de um pequeno grupo de seis pessoas, todos vestindo roupa simples de viagem (2, 3, 4 e 5).


 

Fig. 124 (D. Pedro, fantoche dos aristocratas. Ilustração tirada do livro 500 anos de História Malcontada, de Mário Schmidt, editora Nova
Geração).

 

Para o perquisador Mário Schmidt, D. Pedro não foi o autor da Independência do Brasil. Ele funcionou apenas como uma pecinha de uma grande máquina controlada pela aristocracia
brasileira (6).

 

 



 

Fig. 125 (Aclamação de D. Pedro I. Prancha de Dedret. Biblioteca Nacional/Rio).

 

No dia do seu aniversário (12 de outubro), D. Pedro foi aclamado Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil. Com salvas de canhões e toques de clarins comemorava-se a separação do Brasil de Portugal. Pradoxalmente, a massa popular - não beneficiada com a mudança - aplaudia entusiásticamente o acontecimento (7). As elites também festejavam. Para elas, a Independência do Brasil significava a manutenção dos privilégios antigos
(coloniais) e novos (os decorrentes do liberalismo).

 


 

Fig. 126 (José Bonifácio. Obra de Oscar Pereira da Silva. Museu Paulista/SP).

 

Este cidadão teve papel fundamental na aglutinação das elites em torno de D. Pedro. Das suas manobras políticas saiu o Sete de Setembro: uma independência de cima para baixo, sem nenhuma mudança social e conduzida pelo próprio herdeiro da decadente dinastia dos
Braganças.

 


 

Fig. 127 (Gonçalves Ledo. Museu Paulista /SP).

 

Nos bastidores da independência estavam os maçons da Grande Loja Oriente. Um de seus membros mais atuante foi Joaquim Gonçalves Ledo, partidário de uma independência democrata e republicana. O homem, porém, mudou de idéia quando grandes latifundiários e o próprio Príncipe entraram para sua Loja (8).

 

 


 

Fig. 128 (D. Leopoldina com outro “imperadorzinho” no colo. Óleo de A. Failutti. Museu Paulista).

 

A primeira mulher de D. Pedro, Dona Leopoldina, simpatizava com a causa brasileira. Na sessão do Conselho de Estado (cinco dias antes da proclamação oficial da independência), ela já se posicionava a favor da emancipação do Brasil (9).

 

 

 

 


 

Figs. 129 ( Coroa de D. Pedro I. Museu Imperial Petropólis/Rio).

 

O Brasil foi o único país na América que adotou a monarquia, durante todo o século XIX. Foi o único também que teve uma nobreza “artificial” criada por meio de títulos honoríferos, tirados de nomes de cidades, rios, fazendas e batalhas. O agraciado tornava-se um fiel aliado do Governo (10).

 

 

 


 

Fig. 130 (Prancha de Debret).

 

Para esta gente pobre o Brasil “independente” continuou o mesmo: escravos, índios, mestiços, trabalhadores pobres e camadas médias urbanas submetidas. Até quando? Ouçamos a opinião recente do ex-padre progressista Leonardo Boff: “As elites em seu mimetismo ficam sempre ao lado do governo... isso faz com que o jogo nunca se mude, apenas embaralham-se diferentemente as cartas do mesmo e único baralho (11, 12).”

 


 

 

 

NOTAS:

  1. A obra  "Grito do Ipiranga" de Pedro Américo , uma imensa tela a óleo (medindo 6m 56cm x 4m 10cm) foi pintada em Florença, Itália, entre os anos 1886 e 1888, por encomenda da Comissão Oficial incumbida da construção Monumento do Ipiranga, em São Paulo. Concluída, a obra ficou em exibição naquela cidade italiana, onde foi "elogiada" pela rainha Vitória da Inglaterra. Elogios, na diplomacia e na política, quase sempre levantam suspeitas. D. João VI, por exemplo, era tratado pela diplomacia inglesa como "o príncipe mais rico do mundo" . Envaidecido, o monarca, no poder, ficou permanentemente manietado e manipulado pelos ingleses. Pois, pois ! A obra-prima de Pedro Américo foi elogiada pela governanta inglesa e também por vários soberanos europeus. Não era para menos. O pintor "oficial", financiado pelo Tesouro Brasileiro, caprichou: O vale do Ipiranga, vira colina; a mula de D.Pedro, um belo cavalo zaino; roupas simples de viagem, trajes de gala; o grupo que acompanhava o Príncipe, afastado enquanto ele despejava uma diarréia, aparece unido na sua retaguarda; os dois mensageiros que trazia as cartas, são transformados em mais de trinta guerreiros militarmente uniformizados, montando cavalos castanho-escuros e brancos. Do artificialismo, restou algo real: um assustado caboclo a frente de um carro-de-bois , às margens de cá; um humilde casebre, às margens de lá. Às margens, sim, pois, também, de fora ficaram as massas pobres do Sete. Esta, porém, não foi a intenção do artista paraibano. Queria ele, com esse algo real, diferenciar a cópia do original: a Batalha de Friedland (entre o exército de Napoleão e tropas russas, ocorrida em junho de 1807) retratada por Ernest Meissonier (sem carro-de-bois e casebre, claro !) . A historiografia oficial brasileira cumpre diretinho o seu papel: a obra-prima (ou melhor a cópia-prima) de Pedro Américo pode ser vista e elogiada no Museu Paulista, São Paulo (Brasil 500 Anos, Atlas Histórico, p.45, Bernardo Joffly, Instván Jancsó / Consultor, Editora Três, São Paulo, 1998. História do Brasil, vol. IV, p. 111, Rocha Pombo, Editora W. M. Jackson, Sâo Paulo. Saga, A Grande História do Brasil, vol. 3, p. 90, Abril Cultural, São Paulo, 1981. O Projeto Brasil Urgente disponibiliza aos interessados, para pesquisa, uma reprodução da obra de Meissonier ).

  2. "D. Pedro retornava de Santos e achava-se já às margens do riacho do Ipiranga quando o alcançaram o sargento-mor de milícias Antônio Ramis Cordeiro e o correio Paulo Bregaro, que lhe entregaram as cartas de D. Leopoldina e de Bonifácio. Com o príncipe estavam, além da guarda de honra, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, o secretário Luís Saldanha da Gama, futuro marquês de Taubaté, o secretário particular Francisco Gomes da Silva apelidado Chalaça, o major Franciso de Castro Canto e Melo e os criados João Carlota e João Carvalho. (Saga, A Grande História do Brasil, vol. 3, p.90, Abril Cultural, São Paulo, 1981).



  3. "Durante muito tempo, os historiadores procuraram demonstrar que a emancipação do Brasil foi resultado do gesto heróico e solitário de D. Pedro (...) na verdade, o Sete de Setembro concretizou os ideais da aristocracia agrária, especialmente dos grande proprietário ligados à produção açucareira. Esse setor tinha em sua liderança uma elite ilustrada, herdeira das influências européias, formada por membros da magistratura, da burocracia e do clero" (Op. cit., p. 92).



  4. "A elite agrária desejava que a Independência provocasse o rompimento dos laços coloniais, mais não afetasse a estrutura social e econômica. Além da unidade territorial, era preciso manter a escravidão e a grande propriedade, excluindo do processo político não só os escravos como a grande massa de trabalhadores livres. Para tanto tornava-se necessário assegurar o desdobramento pacífico dos acontecimentos, impedindo-se radicalizações que levassem à república democrática" (Idem, p.93).



  5. " Em face da possibilidade de reimplantação plena do pacto colonial, tomaram vulto as manifestações favoráveis à emancipação. No entanto, entre os grandes proprietários de terra havia o temor de que, a exemplo do que ocorrera em algumas nações da américa latina, especialmente no Haiti, o movimento independentista assumisse um caráter revolucionário, que provocasse profundas transformações na estrutura econômico-social (...) a independência viria, pois, como resultado da confluência dos interesses pessoais de D. Pedro - que pretendia manter o poder, restringido depois da Revolução do Porto - com os dos grandes proprietários de terra, empenhados em evitgar as consequências de uma rebelião popular que pudesse pôr em risco seus privilégios" (Formação Econômica do Brasil, pp. 114/115, Marina Gusmão de Mendonça e Marcos Cordeiro Pires, Editora Thomson, São Paulo, 2002).



  6. " O heroísmo de D. Pedro não explica a Independência do Brasil. No fundo, ele se tornou imperador por interesse das elites brasileiras" (Nova História Crítica do Brasil, 500 anos de História Malcontada, p.120, Editora Nova Geração, São Paulo, 1998)


  7. " Comemorada com grande entusiasmo pelo povo em geral, a Independência ocorreu, na verdade, sem a sua participação, e não alterou profundamente seu modo de vida. Os negros, por exemplo, que, em sua maioria, trabalhavam na lavoura, continuaram submetidos regime escravagista, praticamente alheios aos acontecimentos políticos " (Saga, idem , p.93).



  8. " Durante o movimento da Independência, a atuação da Maçonaria ocorreu sobretudo por intermédio do Grande Oriente Brasileiro, loja na qual José Bonifácio foi grão-mestre, apesar de ser dominada pelos seguidores de Gonçalves Ledo. A loja passou, contudo, a sofrer concorrência do Apostolado da Nobre Ordem dos Cavalheiros de Santa Cruz, sociedade política no estilo dos clubes secretos, porém não-maçônica, criada pelo mais velho dos irmãos Andrada. Ambas se tornaram espaços de sociabilidade fundamentais para que os dois grupos, que disputavam a influência sobre o príncipe regente, realizassem as discussões políticas que resultaram na separação do Brasil de Portugal. Na primeira, D. Pedro foi iniciado, tomando o nome simbólico de Guatimozim , derradeiro imperador asteca, e logo depois foi elevado a mestre e, em 4 de outubro, a grão-mestre..." (Dicionário do Brasil Imperial, p.506, Ronaldo Vainfas/Direção, verbete elaborado por Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2002).



  9. " A carta que D. Leopoldina enviou então ao marido, expressando o temor de que as Cortes cumprissem sua ameaça de ocupar militarmente o Brasil, contribuiu para levar D. Pedro à histórica decisão do Sete de Setembro " (Saga, ibidem, p. 90)

  10. " Tentando obter a lealdade dos segmentos mais conservadores da aristocracia, após o Sete de Setembro D. Pedro I brindou-os com uma enxurrada de títulos nobiliárquicos, que, em poucos anos, ultrapassaram o total de títulos concedidos pela monarquia portuguesa em seus sete séculos de existência " (Saga, ibidem, p. 92).



  11. " Até hoje o Brasil foi construído de cima pra baixo e de fora pra dentro: a partir dos poderes coloniais, depois pelas elites proprietárias e, a seguir, pelo Estado em sua ação mobilizadora e interventora. Essa lógica sedimentou as desigualdades e agravou as exclusões" (Depois dos 500 Anos que Brasil Queremos, p. 67 , Leonardo Boff, Editora Vozes, Petrópolis, 2000).


  12. O primeiro país a reconhecer oficialmente a Independência do Brasil foi os EUA, em julho de 1824. Seguiram-se o México e a Argentina, em 1825. Na Europa, a França foi a primeira a dar o seu aval. Com suas afiadas garras, o leão britânico aproveitou a oportunidade, pra mais uma vez montar na cacunda dos Braganças (e dos brasileiros): para o seu reconhecimento oficial exigiu, além da manutenção dos privilégios da época joanina, que o "herói" libertador pagasse uma conta de dois milhões de libras esterlinas que Portugal devia aos bancos ingleses. Para cumprir a exigência, o Brasil recorreu à Inglaterra e ela própria emprestou o dinheiro pra si mesma. Resultado: o Brasil não viu a cor da grana, e ficou na obrigação de pagar juros leoninos por décadas e décadas. Of course ! Pois outros dois extorsivos empréstimos foram contraidos (em 1829 e 1859), por imposição da "amiga e protetora nação" para saldar restos da duvidosa conta portuguesa. E mais: uma cláusula do contrato do dito empréstimo (artigo 3º) "mandava contar os juros a partir de outubro de 1824" (o empréstimo foi lançado em janeiro de 1825). Por trás da negociata, obviamente estavam os Braganças D. Pedro I e D. João VI. Filho e Pai ! Um estudioso da dívida externa (eterna) brasileira, desde o Império a República, assinala: "o primeiro dinheiro que tomamos emprestado nos escravizou até o raiar da guerra do Paraguai" (Brasil Colonia de Banqueiros, História dos Empréstimos de 1824 a 1834, p. 45, Gustavao Barroso, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1935).



FILMOGRAFIA:

Independência. 1991. Duração 17 min. Documentário. Vídeo do acervo do Instituto Cultural Itaú. Aborda o processo de Independência política do Brasil, no período 1808 - 1822. Destaque para a missão artística francesa trazida por D. João VI.