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O MENINO MONARCA




(Dão Pedro II. Caricaturas ironzando o início do Segundo Reinado. Revista Ilustrada).x

 

Com um ano de idade, Pedrinho perdeu a mãe; aos 5, foi abandonado pelo o pai; aos 14, virou imperador; e aos 64, partiu para o exílio.

Em 1840, os políticos do Partido Liberal resolvem passar por cima da Constituição (o Príncipe só podia ser coroado em 1843) e concedem maioridade para o garoto que ainda brincava nos jardins do Palácio da
Quinta da Boa Vista.

Percebendo a manobra política da camarilha palaciana o povo pilheriava:

Por subir Pedrinho ao trono
Não fique o povo contente
Não pode ser boa coisa
Subindo com a mesma gente.



 



Fig. 152 (Cadeira do trono imperial).

 

Do alto do seu trono, cuja cadeira ostentava dois pares de generoras tetas, “Sua Majestade” distribuiu a uma selecionada elite cerca de 1439 títulos de nobreza. Essas honrarias (notadamente o título de barão concedido, de preferência, aos senhores rurais) significavam prestígio e status para o agraciado. (Daí a cooptação de aristocracia rural brasileira) (1, 2).

 

 


 


Fig. 153 (Coroa de D. Pedro II. Museu Imperial, Petrópolis). E Fig. 154 Um indígena, simbolizando o Brasil, coroa o pequeno monarca. L. Ferrez, Museu Mariano Procópio).

 

Parlamentarismo à moda brasileira: no sistema parlamentar tradicional ( adotado por vários países europeus), o Poder Legislativo tem força efetiva no comando político da nação. Daí a expressão, “o rei reina, mas não governa”. No sistema parlamentar em vigor no Brasil (entre 1847 e 1889), o Imperador, através do Poder Moderador, manipulava todo o poder político do Estado. Por isso, diziam (brasileiramente) que “o rei reinava, ria e roía” (reinava sobre a nação, ria do parlamento e roía o povo).

 

 

 

 

 

 

 


 

 

Figs. 155 (Caricaturas do Imperador, do livro: As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras, 1999)

 

O monarca tupiniquim e suas incoerências: simpatizava com o movimento abolicionista (mas se posicionava sempre ao lado dos escravistas): era amante das letras e das artes (nada fez pela imensa população analfabeta do Império); queria ser professor ( não permitiu a fundaçao de uma Universidade Brasileira ); era apaixonado pelo Brasil (não consintiu que suas duas filhas se casassem com brasileiros); defendia a fidelidade matrimonial (mantinha um “caso” com a Condessa de Barral); ao viajar, recusava dinheiro do Império (sua primeira e longa viagem à Europa foi financiada pela Inglaterra). (3, 4)

 


 

Fig. 156 (Imigrantes à vista Do livro: Brasil Vivo, de Chico Alencar, Marcus Venício e Claudius Ceccon, Vozes, 1996).

 

Entre 1847 e 1857, o interior de São Paulo recebeu a primeira leva de imigrantes europeus. Inicialmente sob o sistema de parceria
( divisão da produção entre o proprietário da terra e trabalhador) e depois, com a experiência do colonato (trabalho assalariado proporcional à produção), a migração internacional foi fator de progresso para a região sul do
Brasil.

 

 


 

Fig. 157 (Tabaqueira feita de esmalte e ouro. O Imperador aparece ao centro, ladeado por duas figuras alegóricas: a Marinha de Guerra (à esquerda) e a Marinha Mercante (à direita. Do Livro: As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz Schwarcz, Companhia das Letras , 1999).

 

No início da segunda metade do século XIX, o Imperador realizou três intervenções armadas contra nossos vizinhos sul- americanos: primeiro contra Oribe, no Uruguai (1851-1852), depois contra o general Rosas, da Argentina (1851-1852), e mais tarde, em 1864, contra Aquirre, no Uruguai. Ao final dessas ações militares (com armas e navios-sucatas comprados da Inglaterra), o Brasil conseguiu o que já era esperado: intrigas e antagonismos na região.

 

 

 


 

Fig. 158 (Bandeira do Império do Brasil, segundo desenho feito pelo francês Jean-Baptista Debret. Obra de Debret).

 

Em 1863, dois incidentes (a conhecida Questão Christie) provocaram o rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Inglaterra. Curiosamente, o Governo inglês (depois de agir com muita arrogância) curvou-se perante o imperador brasileiro, “pediu desculpas” e reatou os laços diplomáticos. Motivo: o Leão Britânico precisava de D. Pedro II para jogá-lo contra Solano López.

 

 

 


 

 

 

NOTAS:

  1. Em seus últimos anos de reinado, D. Pedro II distribuiu com generosidade cerca de 370 títulos nobiliárquicos ao baronato do café: grandes proprietários de terras, exportadores de café. 155 títulos de barão só entre os anos de 1888 e 1889. O último “Barão” do Império, curiosamente, recebeu seu cobiçado título no apagar das luzes da Monarquia: no dia 15 de novembro de 1889. Durante toda a Monarquia (quando mais de 1.400 pessoas foram elevadas a “nobres”), apenas 30 mulheres tiveram “vagas” honoríficas na Casa Imperial. Outro detalhe interessante: o ostentoso título, que abria espaço para festas e bajulação, foi recusado por dois brasileiros: um juiz e um militar (As Barbas do Imperador, D. Pedro II, um monarca nos trópicos, pp. 159 / 194, Lilia Moritz Schwarcz, Editora Companhia Das Letras, São Paulo, 1999).



  2. Além dos títulos de Barão, Visconde, Conde, Marquês e Duque (nessa ordem de importância), a nobreza oficial (artificial) brasileira ostentava outras mercês, cujas outorgas imperiais custavam aos agraciados pequenas fortunas: “Para usufruir o título de duque, deveriam ser pagos 2:450$000 (dois contos e quatrocentos e cinqüenta mil-réis); de marquês, 2:020$000; conde, visconde e barão com grandeza, 1:575$000; visconde, 1:025$000; barão, 750$000. Uma carta de brasão de armas custava 170$000. Também se pagava pelo título de Conselho e pelos tratamentos de Excelência e Senhoria. Além disso, gastos adicionais, com papéis e tramitação, ultrapassavam por vezes o preço do próprio selo”. (Lilia Moritz Schwarcz, op. cit., p. 172. Constituição Política do Império, art. 102, inciso XI).




  3. “O próprio imperador, de qualquer modo, redigiu o interessante Diário da Viagem ao Norte do Brasil (Universidade de Bahia, 1959), no qual revela algo de suas idéias sobre história e arqueologia. A vasta correspondência de D. Pedro II, reunida no Museu Imperial de Petrópolis, também aguarda uma boa investigação” (História do Brasil, p. 309, Eduardo Bueno / Projeto Editorial, Zero Hora/RBS Jornal).




  4. 4. Ao deixar o Brasil, coercitivamente, na madrugada do dia 17 de novembro de 1889, D. Pedro II conduzia na bagagem um pacote sobre o qual estava escrito, pelo próprio punho do monarca: “É terra de meu país, desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria”. Um grande gesto de amor ao Brasil. Paradoxalmente, o Imperador não permitia qualquer aproximação social de suas filhas com brasileiros. Um brasileiro na Família Imperial ? Nem pensar (!!!) Desejando o melhor para as duas princesinhas, o imperador-paizão mandou buscar na Europa dois genros do melhor naipe: um Duque, Luís Augusto; e um Conde, Luís Filipe. Coincidentemente, dois “luis”, mas não-coincidentemente, dois nobres, ambos netos de outro “luis”, Rei da França. Dizem que tudo foi alcoviteiramente acertado pelo imperador: o Duque para Isabel Cristina, herdeira do trono brasileiro; e o Conde para Leopoldina Cristina, a princesinha mais jovem. Com a chegada dos noivos, porém, as duas irmãs (movidas pelo coração e não pela imposição) mudaram de pretendentes: Isabel ficou com o Conde, e Leopoldina com o Duque. Na festança dos casórios (nos dias 15 de outubro e 15 de dezembro de 1864) estavam presentes muitos nobres “artificiais” brasileiros. Estes, sim, convidados orgulhosamente pelo monarca. O paradoxo de tudo é que os brasileiros, muitos anos depois, presenciaram o final merencório da princesa sucessora do trono do império brasileiro: talvez, por ser casada com um estrangeiro, ela não pode vislumbrar e ocupar o trono de um III Reinado no Brasil. Numa madrugada escura, às escondidas, toda a Família Imperial, acompanhada dos dois “importantes genros”, foi expulsa do Brasil. Rainha Isabel, Imperadora do Brasil, casada com um francês ? Nem pensar (!!!) (Publicação do Projeto Brasil Urgente, p. 52).




FILMOGRAFIA:

Isabel e seus negrinhos. 1988. Documentário. 12 min. Vídeo. Distribuição: Cine Vídeo. Aborda a temática dos excluídos 100 anos após a abolição.