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A CLASSE OPERÁRIA




(Obra de Cândido Portinari).

 

Com o início tardio da industrialização brasileira, surgiu a classe operária urbana. A grande quantidade de mão-de-obra operaria disponível permitia que os patrões submetessem seus empregados a miseráveis condições de trabalho.

Situação da nascente classe operária brasileira na República Velha: jornada de trabalho de 14 a 15 horas; exploração de trabalho infantil nas fábricas; total ausência de higiene nos locais de serviço; falta de proteção e ocorrências freqüentes de acidentes de trabalho. Mulheres e meninas sofriam constantemente assedio e abuso sexuais por parte dos patrões, mestres contra-mestres.

E mais: Inexistência de direitos trabalhistas, como salário mínimo, recebimento de horas extras, férias remuneradas, descanso semanal, aposentadorias e indenização por acidente em serviço. Os salários das mulheres e das crianças eram bem menores do que o do trabalho masculino (assim os patrões preferiam contratar a mão-de-obra feminina e infantil).


 



Fig. 206 (Obra de temática social, mostrando a classe operária urbana. “Operários” de Tarsila do Amaral. No primeiro plano, rostos duros e sofridos - dispostos uniformemente - transmitem a idéia de produção em série; no segundo plano, as chaminés representam as fábricas).

 

A QUESTÃO OPERÁRIA

Explorados e sem nenhum direito, os trabalhadores começaram a se organizar. Primeiro, por meio de associações beneficientes; depois, com a criação de seus proprios instrumentos de luta: os sindicatos. No ano de 1917, aconteceu (em São Paulo) a primeira greve da história do país, com a participação de mais de 50 mil trabalhadores. Nos anos seguintes - apesar da violenta repressão - o operário brasileiro continuou lutando por melhores condições de vida e de trabalho. Para as classes dominantes, as reivindicações trabalhistas deviam ser contidas na base da violência. O último presidente da República Velha, Washington Luiz, dizia que “a questão operária era um caso de polícia”. ( 1 )

 


 

Fig. 207 (Macha dos revoltosos do Forte de Copacabana, 1922. Arquivos Nosso Século).

 

O movimento tenentista pregava a moralização da administração pública e o fin da corrupção. Mais tarde, parte dessa oficialidade “renovadora” foi absorvida pelo Governo Getulista, esquecendo os ideais da juventude.

O TENENTISMO

A principal reação - a mais organizada e combativa - contra o regime implantado na República Velha foi o tenentismo. Esse movimento político-militar (auto-intitulado “agente da salvação nacional”) pretendia conquistar o poder e fazer reformas moralizadoras na sociedade, sem, contudo, quebrar o vínculo de dominação entre exploradores e explorados. Suas principais manifestações: Revolta do Forte de Copacabana - 1922: levante militar ligado à hostilidades entre o ex-presidente Hermes da Fonseca e o candidato da situação à presidência, Artur Bernardes (a representação oficial foi violenta e os tenentes rebeldes foram derrotados). Revolta de São Paulo - 1924: outro movimento da oficialidade do exército, objetivando a derrubada do governo Artur Bernardes. Depois de algumas lutas na capital paulista e, impossibilitados de enfrentar, diretamente, as forças federais, os rebeldes formaram a Coluna Paulista e retiraram-se em direção ao sul do país. (Do encontro dos remanescentes desse grupo com outros rebeldes militares do Rio Grande do Sul, nasceu, em 1925, a Coluna Prestes). ( 2 )



 

Fig. 208 (Membros da Coluna Prestes. Membros da Coluna Prestes).

 

A década de 20 foi marcada por uma crescente inquietação revolucionária (reveladora de insatisfação social contra os desmandos da República Velha).

 

 

 


 

Fig. 209 (Itinerário da Coluna Prestes.

 

Por onde passavam, os homens da Coluna incendiavam livros e listas de cobranças, soltavam presos políticos e queimavam instrumentos de tortura, inclusive palmatórias.

A COLUNA PRESTES

Com a finalidade de “manter acessa a chama da revolução e levantar o povo contra o governo”, a Coluna Prestes - formada por 1.500 homens armados - percorreu, durante dois anos, treze Estados brasileiros. Nessa longa marcha (estimada em 25 mil quilômetros) os “revolucionários” travaram mais de 50 combates, conheceram a miséria do sertão e caminharam por imensos latifúndios. Porém, apesar de todo o seu heroísmo, a Coluna não conseguiu a adesão popular. Talvez, porque seus participantes - desvairados para derrubar o governo - relegaram a questão fundiária e a importância social da reforma agrária. Em fevereiro de 1927, o governo já nas mãos de outro presidente, o grupo se arrefeceu e seus integrantes (cerca de 620) se refugiaram na Bolivia e no Paraguai. ( 3 , 4 , 5 e 6 )


 

 

 

NOTAS:

  1. “Não menos duro era o trabalho das crianças, que cumpriam as mesmas jornadas do trabalhador adulto. Menos hábeis que este, os pequenos operários eram ainda mais oprimidos, sofrendo constantes espancamentos e mutilações ocasionadas por máquinas. A prepotência e as agressões físicas dos mestres e contramestres eram norma nas indústrias, e a violência sexual contra as operárias, por parte dos chefes, admitida como natural. Em 1903, os têxteis do Rio de Janeiro realizaram sua primeira grande greve porque uma operária, ao voltar da maternidade, foi despedida pelo menos mestre que provocara sua gravidez” (Saga, A grande história do Brasil, vol. 5, p. 162, Abril Cultural, São Paulo, 1981).



  2. Desprovido de um programa claro de transformações sociais, os tenentes viam-se a si mesmo como uma espélo tutelar” da nação, capaz de purificá-la por meio de uma simples ação moralizadora. Além dessa visão elitista, que os levava a procurar substituir (e não organizar) a mobilização popular, sua ideologia misturava algumas aspirações de reforma social a um vago nacionalismo (Saga, idem, p. 262).




  3. “A Coluna Prestes marchou por 674 dias, percorrendo mais de 24,5 mil km. O contingente básico girava em torno de 800 homens. Os revoltosos nunca ficaram mais de 48 horas em lugar algum. Cerca de 100 mil cavalos foram usados pelos rebeldes – a maior parte tomada de fazendas à beira do caminho. Mais de 30 mil reses foram abatidas para alimentar a tropa. Nos 53 combates com as forças do governo, morreram 600 soldados e 70 oficiais da Coluna Prestes. Mais de 80% dos combatentes encerraram a marcha com pelo menos uma cicatriz de bala”. De todos os revoltos, o mais violento era o tenente João Cabanas, chefe da chamada Coluna da Morte (título também do livro que redigiu em 1929. Cabanas não pôde seguir a marcha da Coluna Prestes porque adoeceu em fevereiro de 1925. Antes disso, porém, nos saques aos mercados de São Paulo, na cobertura que deu à fuga dos rebeldes e, sobretudo, ao tomar das tropas legalistas as cidades de Formigas e Catanduvas (PR), revelou-se o mais feroz dos revolucionários (História do Brasil, p. 213, Edvardo Bueno, Projeto Editorial, Zero Hora / RBS Jornal).




  4. Cinqüenta mulheres acompanharam a Coluna desde o Rio Grande do Sul. Algumas delas mudavam de parceria, provocando lutas sangrentas. Conta Neill Cacaulay: “Outras (...) permaneciam mais ou menos fiéis a um só: ‘Cara-de-macaco’ permaneceu com seu homem, embora ele a surrasse com freqüência (...) Ela deu à durante a marcha, como também o fez Santa Rosa, uma jovem (...) que teria sido bonita se tomasse banho. (...) Um ligação que sobreviveu à marcha (...) foi a de Hermínia, uma enfermeira austríaca que (...) juntou-se com o tenente Firmino, mulato. Os dois exilaram na Bolívia (Nosso Século, vol. 4, p. 106, Círculo do Livro, São Paulo, 1980).




  5. Os poucos livros escritos sobre o assunto são falhos e se limitam, como o Marchas e Combates de Moreira Lima, que foi o secretário da Coluna, a descrever fatos militares e atos de bravura, sem deles tirar nenhuma conclusão. O livro de Jorge Amado – O Cavaleiro da Esperança – é apenas um poema de endeusamento pessoal de Luís Carlos Prestes, além de possuir o defeito, mais importante, de estar longe de corresponder à realidade (História Sincera da República, vol. 2, p. 234, Leôncio Basbaum, Editora Alfa-omega, São Paulo, 1976).




  6. A marcha da Coluna Prestes, foi a grande oportunidade perdida da reforma operária brasileira. O autor, da História Sincero do Brasil aponta 4 erros da Coluna:
    1) Ausência de um mínimo de unidade ideológico. Se havia algo de comum era apenas o anticomunismo dos chefes da Coluna, (Comandantes de Destacamento) e claras tendências para o fascismo, o que se revelou abertamente no tenentismo de após-1930 (...) Moreira Lima, em seu trabalho sobre a Coluna, tresanda a anticomunismo, ou “antibolchevismo”, como diz. Escaparam da regra Luís Carlos Prestes e Trufíno Correa que aderiram ao Partido Comunista, o primeiro em 1934 e o segundo em 1945, muito embora nenhum dos dois jamais chegasse a entender o marxismo.
    2) Ausência de objetivos políticos concretos e de um programa mínimo. A Coluna vivia pura e simplesmente como um destacamento militar. Não havia estudos, debates, preleções políticas que visassem criar uma consciência política, que dá força às massas. De um mofo geral a tropa não sabia porque lutava nem quais os objetivos da Coluna.
    3) A não ocupação de cidades que, ao contrário, eram evitadas foi sem dúvida um dos mais graves erros da coluna. Terezinha, por exemplo, esteve à sua mercê e não ocupavam. A imprensa do país, toda governista, acusava a Coluna de banditismo e contra ela instigava as populações. Nada mais lógico que esclarece-las, dentro das próprias cidades ou vilas. Nada disso foi feito ou sequer tentado.
    4) A ausência de um mínimo de contacto com o povo dos sertões, que fugia da Coluna quando a Coluna não fugia dele – “Em nossa longa marcha, diz Moreira Lima, apenas em dois Estados – Maranhão e Piauí – houve movimentos sérios de caráter popular a nosso favor e dos quais resultou o aumento das nossas forças. Nos demais, o número de voluntários foi simplesmente ridículo” (...) A verdade é que a Coluna nada fez ou tentou fazer para entrar em contato com a massa sertaneja, esclarecê-la sobre os seus verdadeiros intuitos, e ao mesmo tempo auscultar suas queixas e reivindicações, pondo-se a serviço delas, ganhando-as para o seu lado. Nem mesmo viu ou sentiu o problema da terra. É que a Coluna era fruto de uma revolução urbana, de habitantes das cidades, inteiramente alheios aos problemas do campo. Pelos menos foi o que se verificou na prática e o que se constatou depois de 1930, quando os antigos chefes da Coluna revelaram continuar ignorando os problemas do campo e das suas populações – o cerne do país (Leôncio Barbaum, op. Cit., pp. 235/6).




 

FILMOGRAFIA:

Coronel Delmiro Gouveia. 1979. direção: Geraldo Sarno. 92 min. Distribuição Globo Vídeo.
O filme denuncia os obstáculos criados pelo imperialismo, às primeiras tentativas de industrialização no Brasil. Abril espaço para debater o nacionalismo e a realidade sócio-econômica no nordeste brasileiro, no início do século XX.