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SEMANA DE ARTE MODERNA



Fig. 210 ( “A Feira”, de Tarsila do Amaral).

 

O Movimento Modernista - deflagrado na década de 20 - gerou nas letras e nas artes uma onda diferente de contestação contra as velhas estruturas oligárquicas dominantes no país.

No campo artístico, a Semana de Arte Moderna (vista como um grito de independência cultural) nasceu de uma rejeição aos padrões arcaicos e à invasão cultural estrangeira que despersonalizava o nosso país.

Na literatura, os escritores do primeiro tempo modernista (centralizados nos Grupos Pau-Brasil e Verde-Amarelo) defendiam, em suas propostas, uma concepção crítica da realidade brasileira e ironizavam a submissão de nossas elites às nações desenvolvidas.


 


Fig. 211: (Catálogo de Exposição de 1922).

 

A partir da Semana de Arte Moderna (fevereiro de 1922), surgiu o Movimento Modernista, cuja proposta era “abrasileirar” a nossa cultura. ( 1 )

 

 


 

Fig. 212: (Klayon, primeiro periódico dos modernistas).

 

A década de 20 começava buzinando, pedindo passagem para o novo (Klayon designava a buzina externa dos automóveis da época).


 

 

 


 

Fig. 213: (Capa da 1ª. Edição do livro de poesias, de Oswaldo de Andrade).

 

O Grupo Pau-Brasil, primeira vertente do Movimento Modernista, propunha uma literatura autêntica, extremamente ligada à realidade brasileira. Seu ideário era politicamente identificado com as esquerdas.

 

 

 

 



Fig. 214: (Jeca Tatu, símbolo do atraso e da miséria do caboclo brasileiro ).

 

Em resposta ao nativismo do Grupo Pau-Brasil, surgiu o Grupo Verde-Amarelo (segundo vertente do Modernismo) com um programa ultra-conservador. No plano ideologico, deu origem ao Integralismo da década de 30.

 

 

 

 


 

Fig. 215 (Porta-voz do Movimento Antropofágico).

 

O Grupo Pau-Brasil evoluiu para o Movimento Antropofágico, inspirado na “deglutição” do bispo Sardinha pelos índios caetés. No Manifesto Antropofágico, os modernistas propunham a incorporação da cultura européia, porém, remodelada pela realidade brasileira.

 

 

 


 

Fig. 216 ( “Índia” de Anita Malfatti).

 

Os Modernistas do Movimento Antropofágico defendiam a brasilidade em todos os seus sentidos. Seu lema: “Tupi or not tupi, that is the question”. (Versão na linguagem dos modernistas: “não podemos negar nossas raízes ancestrais”).

 

 

 


 

Figs. 217 e 218: (Antropofagia e Abaporu, de Tarsila do Amaral).

 

Nestas telas, associadas ao Movimento Antropofágico, a artista incorpora fortes componentes primitivistas e nativistas. Em “Abaporu” ( o homem que come, em tupi), a figura deformada (uma das caracteristicas da pintura moderna) parece plenamente integrada à paisagem tropical. Seus enormes pés, pintados na tonalidade da terra, lembram nossas raízes. O cacto com o sol ao lado (dando também a impressão de uma flor) harmoniza a aspereza do campo com a alegria brasileira, o traço mais marcante de caráter nacional brasileiro.


 

Fig. 219 [esq] (Ilustração para Macunaína).
Fig. 220 [dir] ( Descoberta da Macunaína:
o “homem é uma máquina”).

 

As obras de Mário de Andrade (Macunaína) e de Cassiano Ricardo (Martim Cererê) sintetizam as duas vertentes do Movimento Modernista. O primeiro livro (baseado em lendas indígenas) traça um perfil crítico do Brasil, envolvendo as aventuras de um anti-herói, (índio/negro/louro, ou seja, as três caras do Brasil) entre oprimidos e opressores da grande cidade. A segunda obra (versificando as proezas de um bandeirante) mostra um herói bem comportado, sério e ufanista que vive uma história passada, exemplar. É um retrato do “Brasil oficial” emoldurado com epopéias, glórias e estátuas.
( 2 , 3 , 4 , 5 e 6 )


 

 

 

NOTAS:

  1. A arte moderna começou na Europa, aí por 1900. no Brasil, estreou com a Semana de Arte Moderna. Para entender a linguagem da arte moderna (pintura), o curador do Museu Imperial, Joel Rufino dos Santos, traz estas dicas importantes: (a) a pintura moderna não tem assuntos obrigatórios. Antes dela só se pintavam certos temas: cenas históricos, mitológicos, santos, paisagens da Bíblia. Com a pintura moderna se pinta tudo: objetos, sensações, sonhos ou simplesmente cores, sem nenhum objeto; b) as fugiras, na pintura moderna, geralmente são deformadas. Às vezes o artista deforma uma figura para lhe dar destaque, ressaltar o que quer dizer. Se é um trabalhador, por exemplo, pode fazer a mão maior do que todo o corpo; c) num mesmo aparecem juntas figuras desenhadas de vários ângulos. Na pintura acadêmica, não. Todas as figuras são pintadas de um só ângulo, como se o pintor estivesse vendo a cena de uma janela (História, p. 53, Joel Rufino dos Santos, FTD, São Paulo, 1992).



  2. Além de generosidade e bondade (influência da nossa origem cristã) e culto a coisas estrangeiras (mania originada na admiração por artigos importados, no passado, quando se importava até caixão de defunto), o tipo brasileiro detém outro: o gosto da ostentação. Esse hábito verde-amarelo (considerado marca registrada nacional) assume forma de identidade social vertical em todos os segmentos da nossa sociedade. Segundo o sociólogo Gilberto Freyre do “regime econômico decorrem o gosto da ostentação e o complexo de refinamento brasileiro”. Ampliando esse entendimento no contexto histórico, vamos buscar as raízes desse comportamento na demonstração de superioridade do colonizador (branco/índio) e na distinção dicotômica escravocrata (senhor/escravo), aqui implantada, durante quase quatrocentos anos. Nos dias atuais, a conduta persiste como forma representativa de posição social ou como recurso consciente para estabelecer diferenças sociais. Para fins de aprofundamento da questão, apontamos, a seguir, dois modelos autóctones, o primeiro indicativo de inclusão social e o segundo, de exclusão, afastamento: 1) Nas nossas comunidades indígenas primitivas, onde não havia exploração de uma classe por outra, o índio adulto, para se situar igual, acocorava-se para falar com uma criança. 2) Entre nós, brasileiros civilizados, emprega-se comumente a expressão “sabe com quem está falando?”, como símbolo de projeção social, autoritarismo ou admoestação (Projeto Brasil, Urgente, site: www.expo500anos.com.br).



  3. Quais os traços mais marcantes da Sociedade (autoritária) brasileira? Marilena Chavi diz o seguinte: a) estruturada pela matriz senhorial da Colônia, disso decorre a maneira exemplar em que faz operar o princípio liberal da igualdade formal dos indivíduos perante a lei, pois no liberalismo vigora a idéia de que alguns são mais iguais do que outros (...) b) estruturada a partir das relações privadas, fundadas no mando e na obediência, disso ocorre a recusa tácita (e às vezes explícita) de operar com os direitos civis e a dificuldade para lutar por direitos substantivos e, portanto, contra formas de opressão social e econômica: para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas populares, repressão. Por esse motivo, as leis são necessariamente abstratas e aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para ser transgredidas e não para ser cumpridas nem, muito menos, transformadas (Brasil, Mito Fundador e Sociedade Autoritária, p. 90, Marilena Chauí, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2000).




  4. Publicado em 1928, MACUNAÍMA, o herói sem nenhum caráter, é umas das obras pilares da cultura brasileira. Revolucionária, desafiou o sistema cultural vigente com uma nova organização da linguagem literária. Com uma narrativa fantástica e picaresca ou malandra-, Mário de Andrade reelabora nesta obra temas da mitologia indígena com visões folclóricas da Amazônia e do resto do Brasil, fundado assim uma nova linguagem literária, bem brasileira. (...) Nacionalista crítica, porém sem ser xenófoba, Macunaíma é a obra que melhor sintetiza as propostas do movimento da Antropologia, criado em 1928 por Oswaldo de Andrade com o objetivo de igualar a cultura brasileira às demais (Macunaíma, Mário de Andrade, para entender a obra (comentários, pp. 165/172, Livraria Garnier, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, 2001).



  5. Macunaíma é um personagem outsider, enquanto original, anti-herói, fora-da-lei, na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna, organizada num sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras do passado, estabelecendo-se um curioso “diálogo com os mortos”. Macunaíma fala com João Ramalho (século XVI), com os holandeses (século XVIII), com o pintor francês naturalista Hercule Florence (século XIX) e com Delmiro Gouveia (século XIX) – pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura (Para entender a obra, idem, p. 170).



  6. Semana de Arte Moderna. Essa foi uma semana de apenas três dias. Mas nunca três dias agitaram tanto o mundo da arte brasileira. Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, sob o apadrinhamento do romancista pré-modernista Graça Aranha, jovens paulistanos dispostos a revolucionar a arte de sua época apresentaram, pela primeira vez em conjunto, suas idéias de vanguarda. Realizada no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, a Semana foi aberta com a conferência A Emoção Estética na Arte, de Graça Aranha, que criticava o conservadorismo e o academicismo da arte brasileira (Idem, p. 166).


 

FILMOGRAFIA:

Macunaíma. 1969. direção: Joaquim Pedro de Andrade.
Adaptação livre do romance-rapsódia de Mário de Andrade. Conta as peripécias de Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter”, na selva e, depois, na cidade grande. O personagem é interpretado por Grande Otelo e, depois de”embranquecer”, por Paulo José.


 

CRÉDITOS DAS IMAGENS: Fig. 211(Ilustração de Di Cavalcante, Saga a Grande História do Brasil, vol.5). Fig. 212 (Cortesia de Vera Galli, São Paulo/Arquivo Nacional). Fig. 213 (Ilustração de Tarsila do Amaral). Fig. 214 (Jeca Tatu, personagem criada por Monteiro Lobato). Fig. 215 (Fac-símile da capa da Revista de Antropografia). Fig. 216 (Obra de Anita Malfatti, Saga a Grande História do Brasil). Figs. 217/218 (Obras de Tarsila do Amaral). Fig. 219 (Ilustração de Cícero Dias / Arquivo Nosso Século, vol. 4). Fig. 220 (Que Cara tem o Brasil?, de Mônica Veloso, Publicações Ediouro, 2000).