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O MENTIROSO PLANO COHEN



(Ilustração de Mollica para a obra de Joel Rufino dos Santos / Editora FTD).

 

Depois da Intentona Comunista, Vargas procurou passar a idéia de que o país continuava sob a ameaça do comunismo internacional

No final do seu mandato presidencial (que seria em 1938, segundo a Constituição), Vargas planejou um golpe para manter-se no poder. Com a ajuda dos militares integralistas inventou-se a existência de uma terrível ação comunista ( o forjardo Plano Cohen) para derrubar o governo e assassinar centenas de políticos brasileiros.

Divulgado à nação com grande estardalhaço, o suposto Plano Cohen serviu de pretexto para Vargas organizar um governo de exceção. Depois de institucionalizar o Estado de Sítio em todo o país, Vargas fechou o Congresso Nacional e outorgou uma nova constituição, de inspiração facista. A seguir, o Presidente passou a governar com poderes ditatoriais.



Fig. 238 (O pretexto para o Golpe de 1937).

 

O mentiroso Plano Cohen (transformado em versão oficial pela cúpula militar) foi levado ao Congresso Nacional, onde os “zelosos” parlamentares imediatamente aprovaram o pedido de Estado de Sítio. Detalhe: o autor do “documento” foi o capitão Mourão Filho (mais tarde, um dos generais que liderou o Golpe de 1965).
( 1 , 2 e 3 )


 

Fig. 239 (Queima de Bandeiras Estaduais).

 

Em dezembro de 1937, Vargas mandou incinerar, em praça pública, todas as bandeiras estaduais. Esse estranho “ato cívico” - presenciado por autoridades civis e militares - simbolizava a nova ordem estabelecida. O Pavilhão Nacional - única bandeira admitida - representava a vitória do Poder Central.

 



 

Fig. 240 (Vargas e o apoio das Armas).

 

O Golpe de 1937 resultou de um movimento dos chefes militares e de Vargas com a sustentação das elites brasileiras. Foram oito anos de estagnação política. A Carta de 1937 - que copiava as idéias básicas do regime facista italiano - nunca foi submetida a referendo popular. Os Estados voltaram a ser governados por interventores e o Poder Legislativo (Senado, Câmara Federal, Assembléias Estaduais e Câmaras Municipais de todo o país) jamais se reuniu.

 

Fig. 241 (Cartilha para Crianças).

 

Na ditadura Vargas, todos os direitos e garantias individuais foram suspensos. O livro Falta Alguém em Nuremberg, de David Nasser, elenca várias formas de torturas, como: esmagamento de testículos com alicates, extração de unhas e dentes, introdução de duchas de mostarda na vagina de mulheres, queima de seios com cigarros, introdução de arame nos ouvidos, aquecimento de órgãos genitais com maçarico e outras torturas cruéis, só superadas no Regime de 1964. ( 4 )

 


 

Figs. 242 e 243 ( Führer Getúlio von Vargas, em 1937 e Cidadão Getúlio Americano, em 1941 ).

 

Além da repressão político-ideológica, Vargas proibiu o funcionamento de todos os partidos políticos, inclusive a Ação Integralista Brasileira. Inconformados, os integralistas romperam com o Governo e armaram uma operação militar (Intentona Integralista) para invadir a residência oficial, capturar o Presidente e tomar o Poder. O ataque - sem sucesso - foi desfechado na madrugada do dia 11 de maio de 1938. Derrotados, os integralistas receberam o mesmo tratamento dispensados aos comunistas: cadeia, tortura e exílio. ( 5 )

 


 

Fig. 244 (Felinto Muller).

 

Este ex-tenente (expulso da Coluna Prestes por corvadia e corrupção) comandava pessoalmente as terríveis torturas da Ditadura Getulista. Foi ele o responsável pela entrega de Olga Benário à Gestapo de Hitler. Mais tarde, em 1971, como político, integrou o Conselho de Defesa dos Direitos Humanos (!).

 


 

Fig. 245 [esq] (Cascas de bananas
no caminho dos adversários).

Fig. 246 [dir] (Sátira às pretensões
continuístas de Getúlio ).

 

Não obstante as tentativas getulistas de redemocratizar o país em 1945 (concessão de liberdade partidária, anistia politica e convocação de eleições presidenciais), outras manobras getulistas, de claro sentido continuísta, motivaram o fim da ditadura. Em outubro de 1945, os generais Goes Monteiro e Gaspar Dutra (os mesmos fiadores do Golpe de 1937) sitiaram o Palácio do Governo e forçaram a deposição de Vargas. ( 6 e 7 )

 


 

 

 

NOTAS:

  1. A notícia oficial desse plano foi disseminada pela figura por todos os títulos respeitável do próprio Ministro da Guerra, Sr. General Eurico Gaspar Dutra, que distribui uma nota à imprensa dando, em linguagem alarmante, os detalhes do misterioso documento. Esse plano, que ficou conhecido mais tarde por PLANO COHEN, longo e impressionante, ocupou quatro colunas dos jornais do dia 30 de setembro de 1937. Ali vinham detalhados os massacres mais horrendos, incêndios, roubos, confisco sumário e violento da propriedade, incêndio de igrejas, desrespeito aos lares, à família e à integridade pessoal dos cidadãos (...). A divulgação desse documento diabólico foi feita por todos os meios de difusão existentes na época: jornais, revistas, rádio, cinema etc., simultaneamente em todo o País, acompanhada de comentários dramáticos, cheios de indignação por parte dos defensores da ordem pública e da propriedade (Ascensão e Queda de Getúlio Vargas, vol. 1. pp. 453 / 4, Affonso Henriques, Distribuidora Record, São Paulo, 1966).



  2. Ademais, sabe-se hoje que o General Góis Monteiro, depois do golpe de 1937, começou a ser acusado de autor do “Plano” não só por parlamentares de minoria, como por oficiais de alta patente que discordaram do golpe. Essas acusações atingiram seu auge um ano depois do golpe, quando a opinião pública começou a perceber que adversários políticos de Vargas, que nada tinha com o comunismo, estavam sofrendo as mais injustas e clamorosas injustiças. O golpe, portanto, fôra desfechado exclusivamente para beneficiar Vargas e seus asseclas e não para barrar intentonas vermelhas. O General Góis, premido por essas acusações, chama o capitão e pede-lhe que faça a tal confissão, garantindo-lhe que nada lhe aconteceria (Affonso Henriques, op. cit., p. 460).



  3. Por que o nome "Cohen" ? O texto original era manuscrito e, para dar-lhe maior autenticidade, Mourão acrescentou-lhe, no final, a assinatura do comunista húngaro Bela Kun, modificando-a depois para Bela Cohen. Ao ser datilografado o texto final, a assinatura foi reduzida para Cohen (Saga, A Grande História do Brasil, vol. 6, p. 86, Abril Cultural, São Paulo, 1981).




  4. Memórias do Cárcere, livro de Graciliano Ramos, expõe as entranhas da depressão (o autor é preso em 36-37). Falta alguém em Nurenberg, de David Nasser, elenca as principais formas de tortura: “esmagavam testículos com uma espécie de alicate, a que chamavam pelo diminutivo de “anjinho”, corruptela de Higino, nome do escrevente da polícia que o inventou. Apertavam o crânio dos presos até que morressem ou enlouquecessem”. Outras delicadesas: arrancar unhas e dentes com alicate, enfiar alfinetes sob as unhas, espancar a esposa ou filha do preso, introduzir duchas de mostarda na vagina de mulheres, queimar testículos com maçarico, seios com charutos e cigarros, enfiar arame nos ouvidos, a cadeira americana, a máscara de couro que impede a respiração... A floresta da Tijuca serve à desova de cadáveres. Só os torturadores do regime de 1964 superarão o Estado Novo (Brasil 500anos, Atlas Histórico, p. 135, Editora Três, São Paulo, 1998).




  5. A máquina repressiva do Estado Novo recebe assessoria do Inteligence Service inglês e da Gestapo Alemã. Policiais brasileiros e alemães torturam Harry Berger (enfiam um arame em sua uretra e esquentam com maçarico). Prestes não é torturado por ser oficial do Exército, mas fica 550 dias incomunicável (não pode nem escrever ou ler). Carlos Marighela, preso em 11/05/37, resiste a suplícios como a aplicação de maçarico na planta dos pés. Também prisioneiros do levante integralista são torturados; o ten. Severo Founier morre em virtude dos maus-tratos. Um sistema de classificação estimula a fidelidade e eficácia dos policiais. A Polícia Especial, tropa de choque de elite recrutada nos clubes esportivos, é especialmente temida. A 1ª e maior onda repressiva (1935-36) atinge os comunistas e aliancistas com quase 17 mil prisões. A 2ª (1938) leva ao cárcere 1.500 integralistas. Em 1940, a 3ª investida prende toda a direção nacional do PCB (Idem, p. 135).





  6. Uma das funções do DIP era também a de promover e alimentar o culto à figura de Getúlio Vargas, apresentado como o “Pai dos Pobres”, e de outros personagens do regime. Escritores de talento duvidoso eram convocados para escrever livros que pintavam uma imagem tão rósea quanto irreal do país e de seus lideres, com títulos como No Presidente Vargas os Verbos Agir e Trabalhar, Sorriso do Presidente Vargas, Getúlio Vargas, Estadista e Sociólogo, História de Um Menino de São Borja. A culminação desse processo de mitificação verificou-se com o ingresso do ditador na Academia Brasileira de Letras, em 1941, cabendo-lhe, ironicamente, a cadeira de número 37 (Saga, idem, p. 95).



  7. Uma ala da intelectualidade adere ao Estado Novo, Villa-Lobos compõe e rege nas cerimônias oficiais imensos corais de até 30 mil vozes e mil instrumentos (1935-37). Gilberto Amado escreve o laudatório Perfil do Presidente Vargas (1936). Cassiano Ricardo e Menotti del Pichia passam pela direção do DEIP-SP e dos jornais A Manhã e A Noite, pertencentes ao Estado. Cândido Portinari, a despeito do engajamento de esquerda, é convertido em pintor nacional oficial e recebe a encomenda de grandes painéis em obras públicas. Já Raquel de Queiroz e Monteiro Lobato passam pela prisão (Brasil 500 Anos, idem, p. 135).

    FILMOGRAFIA

    Memórias do Cárcere. 1982. Direção: Nelson Pereira dos Santos. 178min. Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, narra a prisão do escritor durante a ditadura Vargas. Data a repressão durante o Estado Novo e do papel dos intelectuais no registro e na denúncia da opressão. O filme serve para questionar o autoritarismo e a violenta repressão da primeira ditadura civil brasileira.