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PROTEÇÃO AMERICANA



Fig. 247 (A Aguia Amaricana “ protegendo” o Brasil.
Ilustração de JC Linhares).

 

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil ficou “sob os cuidados” da Águia Americana.

Em 1943, o Presidente Roosevelt visitou o Brasil (levou 25 mil brasileiros para a Guerra). Em 47, veio o seu colega Truman (ganhou uma montanha de manganês). Em 97, foi a vez de Clinton (faturou o Projeto Sivam para “fiscalizar” a Amazônia).

No final do Governo Gaspar Dutra (1950), o país achava-se extremamente comprometido com os interesses dos EUA. Duas marcas indeléveis desse governo pró-americano: combate radical ao comunismo e violenta repressão ao movimento operário.


 


Fig. 253 (Extração de manganês no Amapá).

 

No final do Governo Dutra, o maior truste siderúrgico norte-americano ( a Bethlehem Steel Corporation) obteve o direito exclusivo de explorar, por 50 anos, uma das maiores jazidas de manganês do mundo em troca apenas de 1,4 % sobre as rendas da exportação. Para essa exploração de meio século de duração - feita a céu aberto - as autoridades brasileiras não exigiram nenhum estudo de impacto ambiental. Livre também de fiscalização, a Empresa norte-americana levou, também, outros minérios encontrados ( Daí o acesso proíbido a brasileiros em determinadas áreas do empreendimento). ( 1 , 2 , 3 e 4 )


 

Fig. 254 ( Charge do Presidente Dutra)

 

O General Eurico Gaspar Dutra, quarto militar na Presidência da República, exibia anedótico respeito pela Constituição de 1946 (que chamava de “livrinho”). Apesar da paixão pelo “livrinho”, o presidente limitou o direito de greve, interveio em 143 sindicatos do país, perseguiu seus opositores políticos e fechou o PCB.

 



 

Fig. 255 ( Truman, à esquerda, cumprimentando Dutra).

 

“How do you do, Dutra?” “How tru you tru, Truman?”, teria respondido o presidente brasileiro. Antes da visita do presidente Truman, veio ao Brasil (em 1946), o general Eisenhower. Para sondá-lo foi encarregado o presidente da UDN, Otávio Mangabeira. Num gesto servil, o representante brasileiro inclinou-se e beijou as mãos do visitante. Era o início da Guerra Fria) e o Brasil, como um pinto molhado abrigava-se debaixo das asas da Águia Americana.
( 5 )


 

Fig. 256 (Tópicos da Carta de 1946: quinta da
História do Brasil e quarta do período republicano).

 

O Projeto da Constituição de 1946 (elaborado por uma Comissão de 37 constituintes, escolhidos conforme a representação proporcional dos partidos políticos) baseava-se fudamentamelte na Carta de 1934, mas continha elementos da de 1891 e conservava muitos dispositivos da Constituição de 1937, principalmente no tocante as questões trabalhistas. Essa, e quase todas as outras constituições brasileiras, foram “produtos” de golpes.

 


 


Na gestão de Dutra, incluem-se a abertura de estradas, a criação de refinarias, o início do aproveitamento da energia hidráulica de Paulo Afonso e o aparelhamento dos principais portos nacionais. Com Dutra nasceu, também, o primeiro plano econômico integrado do país: o Plano Salte (sigla que identificava os objetivos do plano: Saúde, Alimentação, Transporte e Energia). Ao lado desse programa governamental - visto com ciúme pelo governo norte-americano - foi criada a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos ( composta por técnicos e empresários dos dois países), cujo relatório recomendava, enfaticamente, a “entrada” do capital estrangeiro. A partir daí, o Plano Salte foi abandonado e a política econômica brasileira passou a ser orientada pelos ventos que sopravam da Casa Branca. Ajoelhado aos pés do Tio Sam, Dutra abriu as portas do país para as importações (diminuindo rapidamente as reservas acumuladas de US$ 708 milhões) e comprou, sob presão da Inglaterra, velhas ferrovias britânicas (São Paulo Railway Company, Great Western e Leopoldina Railway) aqui instaladas na segunda metade do século XIX. Depois de apertar a mão do presidente dos EUA (no conhecido encontro do “How tru you tru”), Dutra assinou um humilhante acordo militar (Tratado de Assistência Recíproca) possibilitando o desembarque de tropas norte-americanas no território nacional. Ainda sob às ordens do Tio Sam, Dutra rompeu relações diplomáticas com a URSS, cassou o PCB e reprimiu violentamente, o movimento operário brasileiro. Nas palavras do professor cearense Wagner Castro, “Dutra chupava o picolé americano da Guerra Fria”. ( 6 )


 

NOTAS:

  1. Na década de 60, numerosas empresas norte-americanas, conduzidas pela mão de aventureiros e contrabandistas profissionais, se lançaram num rush febril sobre esta selva gigantesca. Previamente, em virtude do acordo firmado em 1964, os aviões da Força Aérea dos Estados Unidos haviam sobrevoado e fotografado a região. Utilizaram equipamentos de cintilômetros para detectar jazidas de minerais radioativos pela emissão de ondas de luz e intensidade variável, eletromagnatrômetros, para radiografar o subsolo rico em minerais não ferrosos, e magnetrômetros para descobrir e medir o ferro. Os informes e as fotografias obtidas no levantamento da extensão e profundidade das riquezas secretas da Amazônia foram postos em mãos de empresas privadas, interessadas no assunto, graças aos bons serviços do Geological Survey do governo dos Estados Unidos. Na imensa região, comprovou-se a existência de ouro, prata, diamante, gipsita, hematita, magnetita, tantálio, toro, urânio, quartzo, cobre, maganês, sulfatos, potássios, bauxita, zinco, circônio, cromo e mercúrio (As Veias Abertas da América Latina, pp. 150/151, Eduardo Galeno, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1994).




  2. O Congresso brasileiro pôde realizar uma investigação que culminou com um volumoso informe sobre o tema. Nele se enumeram os casos de venda de terras em vinte milhões de hectares, estendidas de maneira tão curiosa que, segundo a comissão de inquérito, “formam um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A “exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura no informe como um dos principais motivos da avidez norte-americana para abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O testemunho do gabinete do Ministério do Exército, recolhido no relatório, assinalou “o interesse do próprio governo norte-americano em manter, sob seu controle, uma vasta extensão de terras para sua utilização ulterior, seja para a exploração de minerais, particularmente os radiativos, seja como base de uma colonização dirigida” (Eduardo Galeno, op. cit., p. 151).




  3. As minerações em larga escala, como as que ocorrem na Amazônia, têm causado danos ao ecossistema que ainda não foram convenientemente avaliados. A maioria dos projetos foi implantada sem o devido Estudo de Impacto Ambiental (EIA) (Panorama Geográfico do Brasil, contradições, impasses e desafios socioespaciais, p. 279, Melhem Adms e Sérgio Adas, Editora Moderna, São Paulo, p. 199).




  4. A exploração mineral a céu aberto arrasa paisagens inteiras: retira a cobertura vegetal; destrói o relevo; seus rejeitos, muitas vezes largados caoticamente, tornam-se uma fonte de detritos que provocam o assoreamento dois rios e alteram as características físicas e químicas dos cursos fluviais, com conseqüências drásticas para os ecossistemas terrestre e aquáticos; afetam as populações ribeirinhas que dependem dos rios para sobreviver, seja como fonte de alimento, como meio de transporte ou, ainda para o desenvolvimento da agricultura em suas margens ou várzeas que contêm depósitos de sedimentos (Melhem Adas e Sérgio Adas, op. cit., p. 279).



  5. Quando Eisenhower visitou o Brasil, em 1946, o presidente da UDN, Otávio Mangabeira, foi encarregado de saúda-lo: “Em nome do país (...) inclino-me respeitoso diante do General Comandante-Chefe dos Exércitos que esmagaram a tirania, beijando, em silêncio, a mão que conduziu à vitória, as Forças da Liberdade”. E beijou as mãos da visitante. Foi um escândalo nacional. A Constituinte foi obrigada a dedicar um dia de seus trabalhos ao “polêmico beijo”. João Botelho (PSD/PA) fez uma defesa eloqüente do “beijo como homenagem, através da História” (Nosso Século, vol. 7, p. 46, Abril Cultural, São Paulo, 1980).






  6. Entre 15 de agosto e 02 de setembro de 1947, o suntuoso Hotel Quitandinha, de Petrópolis (RJ), recebeu os representantes de todos os países do continente americano para a Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança (...) No final da Conferência, foi assinado o Tratado de Assistência Recíproca, que permitia a intervenção norte-americana, com a ajuda de tropas de outros países signatários do Tratado onde quer que “a paz e a segurança” estivessem ameaçadas. Acobertados por esse Tratado, os EUA invadiram a República Dominicana (1966), o Chile (1970) e quase desembarcaram no Brasil (março de 1964) com o gigantesca operação Brother Sam. Detalhe: o governo brasileiro e a cúpula militar “ignoram” que esse acordo intervencionista (feito em nome da sepultada guerra fria) ainda continua em plena vigência? (Nosso Século, vol. 7, p. 47, texto adaptado para o Projeto Brasil Urgente).



    FILMOGRAFIA

    Lembrai-vos de 1937. Direção: Wilson Paraná. Duração: 60 min. Documentário. O filme cuida do período da Ditadura Vargas (1937-1945). Reúne importante documentação e depoimentos de historiadores da época


 

CRÉDITOS DAS IMAGENS: Fig. 253 (Serra do Navio/Amapá. Cortesia Kim Ir-Sen-Ikso-Reflexo). Figs. 254 e 255 (Nosso Século, vol. 7, Abril Cultural, 1985). Fig. 256 (Adaptação de Amauri Oliveira).