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PAINEL 7



Fig. 262 (Charge de Sinfrônio).

 

Três presidentes e suas marcas características: JK construiu Brasília e endividou o país; Jânio não gostava de brigas de galo, mas apreciava uma “ biritinha”, João Goulart tentou reformas radicais e levou um “chute”.

O Governo Juscelino (1956-1961), voltado para o setor da industrialização (tendo por base a transferência de tecnologia absoleta de empresas estrangeiras, a isenção de impostos por dez anos e o aproveitamento de mão-de-obra barata) alcançou um rápido e nunca visto crescimento econômico, porém, deixou o Brsail extremamente endividado e dependente do capitalismo internacional.

Jânio Quadros com sua política externa (aproximação com a URSS, China e não-apoio ao bloqueio norte -americano à Cuba) descontentou o governo dos EUA, militares e líderes da UDN. João Goulart “considerado” uma ameaça de comunização do país (em razão de suas propostas reformistas) representava um “perigo” para o Brasil. Para afastar esse “perigo” surgiu o Golpe de 31 de Março.


 


Fig. 263 (Juscelino caricaturado por Mollica).

 

O Governo JK - considerado uma ponte entre o velho e o novo Brasil - foi marcado por importantes reliazações administrativas. Afora o extraordinário desenvolvimento econômico alcançado no período, quatro aspectos da política juscelinista merecem questionamentos: 1) opção por um “modelo desenvolvimentista dependente” (com a abertura do país a empresas estrangeiras, as quais recebiam facilidades excepicionais, como: prazos fiscais, terrenos, infra-estrutura, créditos oficiais e isenção de taxas para importação de maquinário); 2) venda da única fábrica de motores nacionais, a estatal FNM ( deixando o país fora do maior negócio do mundo, e hoje inteiramente absorvido pelas montadoras internacionais); 3) expansão da rede rodoviária do país ( mais uma vez, o dedo das multinacionais do automóvel metido nessa prioridade oficial); e 4) abandono do sistema ferroviário nacional (atualmente, a pequena e sucateada malha ferroviária existente, em comparação com a vasta extensão territorial do país, resulta numa densidade ferroviária inferior a da Argentina, da Bélgica e de outros países.


 

Fig. 264 (Ao renunciar Jânio planejava voltar como um
herói / Charge feita por Otélo ).

 

O “homem da vassoura” assumiu a Presidência da República prometendo “varrer” toda a sujeira da vida pública brasileira. Não varreu. Um dos hábitos janista era mandar “bilhetinhos” para seus auxiliares. Em 206 dias de governo, JQ rabiscou mais de mil e quinhentos bilhetes. Outra babaquice do Presidente: proibição de uso de biquínis nas praias, corridas de cavalo nos dias úteis, brigas de galo e desfile de “misses” com maiôs cavados. Alguma coisa seria? Sim. Jânio Quadros cortou subsídios, congelou salários e reduziu o crédito financeiro dado aos empresários. No plano externo, os pés tortos de Jânio enveredaram por uma trilha diferente daquela indicada pelo Tio Sam: aproximou-se do bloco socialista (URSS e China), discordou do boicote comercial imposto à Cuba e condecorou o Ministro da Economia do governo cubano, Ernesto “Che”Guevara ( um dos líderes da revolução daquele país). Era demais! Os Yankees falaram grosso. Os udenistas conservadores reclamaram e os militares não se aquetaram. No dia do soldado, o filho da dona Leonor escreveu outro bilhetinho e renunciou.


 

Fig. 265 (Charge de Mollica).

 

Contra a posse do vice-presidente insurgiram-se os ministros militares, políticos udenistas e grandes empresários, os quais acusavam João Goulart de ser incentivador de greves e admirador do comunismo. A favor da posse - conforme rezava a Constituição Federal - estavam o Comandante do III Exército, os Governadores dos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás, intelectuais, estudantes e sindicalistas. No meio desse rebuliço e sob o manto do parlamentarismo (ajeitando às pressas), João Goulart assumiu o cargo . Fortalecido, logo depois, com a volta do presidencialismo, o Presidente procurou pôr em prática uma política extremamente nacionalista, objetivando (1) a nacionalização progressiva das indústrias e bancos estrangeiros (2) o controle da remessa de lucros para o exterior bem como a entrada da capitais estrangeiros no país (4) a redução da dívida externa e (5) a implantação das reformas agrária, urbana, educacional e tributária. Essas e outras propostas reformistas atingiam em cheio as classes dominantes. Daí a união com as Forças Armadas para derrubar o Presidente. No dia da mentira, o Brasil amanheceu fardado.


 

Fig. 266 (Informe Secreto do Pentágono).

 

Os brasileiros - civis e militares - que orquestraram a derrubada de Jango, basicamente, eram: empresários urbanos (industriais, banqueiros e grandes comerciantes) procupados com as greves e a crescente mobilização das esquerdas; empresários rurais (grandes e médios latifundiários) atemorizados com a desapropriação de suas terras; setores conservadores da Igreja Católica (padres e senhoras religiosas) assustados com a ameaça de comunização do país; militares das Forças Armadas (cúpula militar e oficialidade alinhada com os EUA e com a doutrina de ESG) defensores da Lei e das Instituições Democráticas; militares de baixa patente (cabos e sargentos infiltrados) “grangeadores” de desordens e quebra da hierarquia no interior dos quartéis. Por trás de tudo isso, atuavam - ostensiva e secretamente - agremiações politícas conservadoras (IBAD e IPES, financiados com o dinheiro de empresários nacionais e estrangeiros) e o dedão de Washington (Pentágono, embaixador Lincoln Gordon, “adido militar” Vernon Walters e agentes da Cia) com o objetivo único de desmontar o governo constitucional brasileiro. ( 1 e 2 )


 

 

A operação Brother Sam, “segundo” o Tio Sam: [ A derrubada de Jango foi planejada e realizada exclusivamente por brasileiros - civis e militares. Mas a Embaixada dos EUA acompanhava atentamente os acontecimentos, e Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, mantinha o presidente Johnson a par da evolução da conspiração. Era opinião dominante na Embaixada que os conspiradores se melindrariam diante de qualquer ato que pudesse parecer uma inqeíência americana nos assuntos internos do Brasil. Havia, contudo, a possibilidade de uma guerra civil prolongada. Assim, a Embaixada elaborou dois planos de apoio à facção antijanguista. O primeiro consistiria no fornecimento de petróleo, pois temia-se que os trabalhadores da Petrobrás danificassem as refinarias. O segundo seria o envio de uma força-tarefa naval para as costas brasileiras. No dia 31 de março, uma reunião em Washington deliberou também o fornecimento de armas e munições. Uma esquadra, liderada pelo Porta-aviões Forrestal e com destróicres de apoio, recebeu ordens para Partir de Norfolk, na Virgínia, no dia 1.' de abril, trazendo um carregamento de armas para os rebeldes. Além disso, dois petroleiros deverian ser enviados. Mas era necessário que todo esse carregamento chegasse rapidamente. Então, sete aviões de transporte C-135, oito aviões de caça e oito aviões-tanque foram preparados para chegar ao Rio, no mesmo dia, trazendo 110 toneladas de armas portáteis e munição. Esses preparativos receberam o nome em código de "Brother Sam" ("Irmão Sam"). A operação seria desencadeada apenas no caso de as forças contrárias a Goulart passarem por dificuldades. Às 17h 30min. do dia 1.' de abril, Lincoln Gordon enviou um telegrama ao Departamento de Estado dos EUA: "Acreditamos que está tudo terminado, com a rebelião democrática 95% vitoriosa" No dia 2, informou à Washington que toda a resistência no Rio Grande do Sul tinha terminado. "Na tarde do dia seguinte, essa operação foi cancelada com instruções para se ,preservar o disfarce de treinamento Quick Kick ('Rebate Rápido') com que se encobria toda a operação". Não foi preciso interferir no Brasil ].
Nosso Século, vol. 9, Abril Cultutal, 1980. ( 3 , 4 , 5 , 6 e 7 )


 

NOTAS:

  1. Os EUA não brincaram em serviço. Secretamente, enviaram dólares para o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), para financiar campanhas de candidatos de direita. O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) fazia propaganda ideológica contra o governo (Nova História Crítica do Brasil, p. 165, Mario Schmidt, Editora Nova Geração, São Paulo, 1996).




  2. O toque final foi provocar as Forças Armadas. Cabo Anselmo, um agente da CIA (serviço secreto dos EUA) infiltrado na Marinha, liderou uma revolta de marinheiros. Jango, em vez de reprimir, anistiou-os. Os militares nunca o perdoaram por ter permitido a “quebra da hierarquia” (Maria Schmidt, op. cit., p. 135).




  3. Para a eventualidade da eclosão de uma guerra civil, o grupo de trabalho da Embaixada elaborou dois planos que poderiam ser usados para fazer a balança pender em favor do lado simpático aos Estados Unidos. O primeiro plano dizia respeito ao fornecimento de petróleo. Em caso de golpe, o acesso ao petróleo poderia ser crítico para os conspiradores, tanto para o transporte militar quando para manter as atividades civis funcionando normalmente. Os estrategistas norte-americanos temiam que os partidários de Goulart no sindicato da Petrobrás pudessem fazer explodir as refinarias. Se houvesse necessidade do petróleo americano e este fosse fornecido, os Estados Unidos poderiam com esse gesto prestar um serviço aos conspiradores e ao Brasil em geral, pois presumivelmente grandes setores do País poderiam ficar temporariamente paralisados, caso não houvesse fornecimento imediato. O segundo plano proposto pela Embaixada era que uma força tarefa norte-americana de porta-aviões poderia ser enviada ao Brasil. Duas finalidades seriam atendidas por meio dessa ação. Baseados em relatórios das várias fontes de informações, os estrategistas da Embaixada acreditavam que, quando ocorresse um golpe, a maior parte do País, provavelmente, cairia logo sob o domínio de Castelo Branco. Contudo, eles acreditavam que, especialmente no Rio Grande do Sul e em Pernambuco, um grupo de dissedentes poderia resistir. Uma frota de porta-aviões norte-americanos nas águas ao largo da costa do Brasil poderia ajudar a manter a estabilidade por meio de uma demonstração “simbólica” de poderio militar (O Papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de março, pp. 94/95, Phyllis R. Parker).




  4. Às 11,30 da manhã de 31 de março, realizou-se uma reunião em Washington da qual participaram o Secretário Dean Rusk e outros representantes do Departamento de Estado; o Secretário de Defesa Robert McNAmara; o Chefe do Estado-Maior General Maxwell Taylor; o Comandante-Chefe das Forças do Sul (USCINCSO) Tenente-General Andrew P. O'Meara; o Diretor da CIA John McCone; e outros altos funcionários. Na reunião, houve relatórios sobre a situação militar do Brasil e sobre a capacidade de apoio aéreo e naval dos Estados Unidos. O grupo considerou que ações políticas deviam ser tomadas (tais como consulta a outros países latino-americanos, declarações públicas, etc.) e discutiu as disposições organizacionais para lidar com a crise brasileira, inclusive a criação de um grupo de trabalho interdepartamental e a consideração de “relações e comunicações entres a Embaixada [dos Estados Unidos] no Rio, os consulados e as forças militares norte-americanas” (Phyllis R. Parker, op.cit., p. 101).






  5. Na tarde de 31 de março, os Estados Unidos começaram a transformar os planos preventivos em ação. O primeiro plano executado enviou um porta-aviões de ataque pesado, o Forrestal, e destróieres de apoio (inclusive um destróier equipado com mísseis teleguiados) em direção das águas brasileiras. A finalidade dessa força-tarefa era “firmar a presenças dos Estados Unidos nessa área e estar preparada para executar as tarefas que lhe fossem designadas. Os navios deviam partir de Norfolk, Virgínia, às 7 da manhã, hora local (9 da manhã no Rio de Janeiro), a 1º de abril, e deviam chegar a Santos, porto de São Paulo, por volta do dia 11. O apoio adicional dos navios compreendia petroleiros bélicos, navios de munições e navios de mantimentos. Entrementes, o General-de-divisão George S. Brown era nomeado Comandante de Missão para o projeto “Brother Sam” (Irmão Sam). Essa operação combinava a força-tarefa do porta-aviões e o apoio de POL, planejados pela Embaixada no Rio, com a operação preventiva originada em Washington, a fim de fornecer armas e munição para os conspiradores militares do Brasil. Os JCS (Chefes Conjuntos do Estado-Maior) instruíram o Comandante-Chefe do Sul, General Andrew O'Meara, para transportar por avião 250 espingardas de caça, calibre 12, marcadas “Brother Sam” para a Base Aérea de Ramey, em Porto Rico, às 3 da manhã, hora do Rio de Janeiro, a 1º de abril. Além disso, 110 toneladas de armas portáteis e munição marcadas “Brother Sam” deveriam chegar o mais tardar ao meio-dia, hora oficial do Leste americano, à Força Aérea McGruire, New Jersey, para serem transportadas por avião para o Brasil. Os aviões destinados a essa missão compreendiam: sete aviões de transporte C135, oito aviões de caça, até oito aviões-tanques (para apoio do socorro aéreo), um avião de comunicações e um posto de comando transportado pelo ar (...). Às 7 horas da manhã do dia 1º de abril, na Base da Força Aérea no Panamá (9 horas no Rio de Janeiro), uma força-tarefa conjunta do Exército, Marinha, Força Aérea e CIA, “ultra-secreta”, entrou em ação sob o comando do General de Divisão Breitweiser da Força Aérea. A finalidade dessa força-tarefa parece que era a de acompanhar e coordenar a logística de “Brother Sam” (Idem, op. cit., pp. 103/6).




  6. Às 5,30 da tarde, Gordon (embaixador americano no Brasil) manda um teletipo para o Departamento de Estado: “Acreditamos que está tudo terminado, com a rebelião democrática 95% vitoriosa”. Ele frisou que poderia ainda haver alguma contenda civil e que “começamos o trabalho de equipe para as possíveis necessidades de ajuda à segurança interna, estabilização financeira, etc”. Washington respondeu: “Tivemos um grupo de trabalho especial aqui ocupando-se durante vários dias de assistência econômica e financeira, auxílio de emergência, etc., e estamos preparados para agir prontamente de acordo com as suas recomendações”. Depois dessa conferência pelo teletipo, o Subsecretário Ball encontrou-se com o Presidente Johnson para transmitir-lhe as boas novas (Ibidem, p. 108) A obra de Plyllipis R. Parker, com o título original em inglês: U. S. Policy Prior To The Brazilian Coup of 1964, publicada somente depois que a operação Brother Sam foi divulgada (em 1976) encontra-se na Lyndon B. Johnson Presidential Library, University of Texas, Austin, USA. Outros documentos da operação Brother Sam e da participação americana no Golpe de 1964, uns já abertos ao público e outros considerados “top secret”(ultra-secreto), não liberados, estão no National Security File, no Presidential Office Files, e no White House Central Files, em Washington, O Projeto Brasil Urgente, disponibiliza um exemplar da obra de Phyllis R. Parker aos pesquisadores interessados.



  7. Para afastar os “riscos” do comunismo da América Latina, os estrategistas do Pentágono (EUA) arquitetaram, no período de 1964 a 1978, nove Golpes de Estados (Brasil, Bolívia, Argentina, Peru, Panamá, Clihe, Equador, Uruguai, Colômbia), cujo os governos transformaram-se em ditaduras controladas pelo “democrata” Tio Sam.




    FILMOGRAFIA

    Jango. 1984. Direção: Silvio Tendler. 110 min. Documentário. Distribuição: Caliban. O filme reúne farto material (fotos, entrevistas e cinejornais) sobre a carreira política de Joao Goulart. O tom geral do filme (embora com depoimentos de adversários de Jango) procura despertar simpatia pela figura do ex-presidente, visto como um idealista, vítima de ardil golpista.

    O Americano Tranqüilo. 2002. 188min. Direção: Phillip Noyce. Espionagem. O filme é uma adaptação do livro de Graham Greene. Revela como o governo americano intervém sorrateiramente na política interna dos países onde detém interesses econômicos e estratégicos. Em foco infiltração de agentes da CIA (O Projeto Brasil Urgente, disponibiliza uma cópia, em DVD aos pesquisadores enteressados).

     


 

 


CRÉDITOS DAS IMAGENS: Fig. 263 (Charge de Mollica para História, de Joel Rufino dos Santos, Editora FTD, 1992). Fig. 264 (Ilustração de Otélo para a revista O Crizeiro, de 13/10/1962). Fig. 265 (Ilustração de Mollica para a obra Joel Rufino dos Santos). Fig. 266 (Telegrama sobre operação Brother Sam /Nosso Século, vol. 9, Abril Cultural, 1980).