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PAINEL 6



Fig. 267 (Pau-de-arara).

Nesta posição, nú, o preso recebia choques elétricos na língua, nos dentes, ouvidos, e sobretudo, nas partes genitais.

 

Para os generais presidentes, os contestadores do Regime Militar - tidos como “subversivos” ou “inimigos da Pátria - mereciam cadeia, exílio ou o pau-de-arara.

Respire fundo para ler um balanço da mais longa didatura militar da nossa história: suspensão de direitos politícos e cassação de mandatos eletivos (atingiram mais de mil pessoas, inclusive os ex-presidentes Juscelino, Jânio e Jango). Repressão à intelectualidade (12.752 “subversivos”foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional e cerca de 10.000 exilados foram parar no exterior. Perseguições de servidores públicos e militares (2.958 sevidores civis e 2.757 militares foram afastados). Pessoas desaparecidas (cerca de 144 casos até hoje não foram esclarecidos).

Torturas físicas e psicológicas (um número incalculável de estudantes e intelectuais passou por prisões ilegais, sofrendo os mais cruéis e desumanos tipos de tortura, como: choques elétricos nos dentes, ouvidos, língua, testiculos e vagina; arracamento de unhas e dentes; baratas vivas introduzidas no ânus de mulheres presas, cobras deixadas nas prisões durante à noite. Legislação arbitrária (Atos institucionais ilegítimos como AI-5, que ficava acima do Poder Judiciário e o Decreto 477/69, proibindo a discussão de temas políticos em salas de aula).


 


Fig. 268 (Charge de Loredano).

Fig. 269 (Torturadores Oficiais e seus instrumentos. Ilustração de Rubem Grilo).

Fig. 269-B

Em 1970, o Brasil ganhou o tri-campeonato mundial. Ziraldo retratou a felicidade do brasileiro!!!

Somos os campeões mundiais! Que felicidade!

 

Os cinco generais-presidentes foram mais ou menos um a cópia do outro: foram escolhidos sem o voto popular, governaram com poderes ditatoriais, reprimiram as oposições, afastaram o povo das eleições e adotaram, todos, uma política econômica baseada no binômio segurança/desenvolvimento. O primeiro deles, Castelo Branco, começou com prisões, cassações e o fechamento de entidades estudantis e sindicais. Seu governo pariu três “filhotes” ilegítimos: a) AI-2 (acabando com eleições diretas para a presidência da República e autorizando o funcionamento apenas do MDB, partido do “sim” e da ARENA, partido do “sim, senhor”); b) AI-3 (estabelecendo eleições indiretas para governadores e “nomeação” para prefeitos das capitais); e c) AI-4 (convocando o Congresso Nacional para “aprovar” uma constituição encomendada pelo Regime). Além dessas “crias”, o presidente criou o SNI (para vigiar e enquadrar os “inimigos da pátria”). Também, revogou a Lei de Remessas de Lucros (entregando o país à livre exploração das multinacionais). Costa e Silva deu continuidade à obra de seu colega: prendeu metalúrgicos, fechou novamente o Congresso Nacional e baixou o AI-5 (o mais temível instrumento repressor lançado pelo Regime). Amparado por esse ato, o governo podia fechar as sedes do Poder Legislativo (Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais), legislar em todas as matérias, intervir nos Estados e Municípios, decretar estado de sítio, suspender direitos políticos de qualquer cidadão, cassar mandatos eletivos e demitir ou aposentar servidores civis e militares. Com poderes absolutos - só comparáveis aos dos governantes do passado Colonial - a Ditadura entrou na sua fase mais cruel, com prisões ilegais, torturas, “desaparecimentos", deportações, exílio e mortes. As botas militares deixaram suas marcas até no Supremo Tribunal Federal: quatro Ministros foram afastados. O terceiro presidente militar - General Médici - enfiou a espada até o cabo: invadiu universidades e fábricas, perseguiu intelectuais, artistas e padres, implantou rigorosa censura e aperfeiçoou o aparato repressivo. Seu governo - marcado pela ação violenta dos DOI/CODIS - deixou um rastro de brutalidades nunca visto. Os torturadores oficiais (geralmente “assessorados” por médicos-legistas) ultilizavam todo tipo de selvageria: choques elétricos (aplicados nas partes sensíveis do corpo, sobretudo, orgãos genitais); geladeira (ambientes super-refrigerados, abafados ou com sons estridentes); banho chinês (imersão sucessiva da cabeça do prisioneiro num tanque d`água) ; pimentinha (dispositivo elétrico que provocava queimaduras na língua, seios e interior do ânus); e outras brutalidades, como: o pau-de-arara, a cadeira do dragão e o uso de baratas vivas (estas quando introduzidas no reto, subiam pela garganta, boca e narinas, levando fezes e fedor). O quarto chefão militar - General Geisel - deu os primeiros passos rumo à abertura política. Seu goverto removeu parte da legislação arbitrária, abrandou a censura e permitiu a realização de eleições livres para senadores, deputados e vereadores. O povo foi às urnas (novembro de 1974) e com uma arma eficaz - o voto - deu um “olé” na Ditadura: o MDB derrotou a Arena em 16 dos 21 Estados brasileiros. Veio a desforra! Geisel inventou a figura do senador “biônico” (um terço do Senado) para dizer “amém” ao governo. Enquanto isso, nos quartéis, os militares da “linha dura” (partidários da apertura) continuavam torturando e executando presos políticos. João Figueredo - último plantonista no poder - cuidou dos arranjos funerários do Regime. Sob pressão da sociedade civil, o governo acabou com a censura, concedeu anistia, permitiu a reestruturação partidária e reestabeleceu eleições diretas para governadores. Nessa época, organizaram-se grandes manifestações públicas exigindo eleições diretas para a presidência da República. Nos bastidores, grupos radicais militares e paramilitares interessados no retrocesso político - praticavam atentados terroristas camuflados. O caso Riocentro, os incêndios a bancas de jornais, o episódio da carta-bomba enviada à OAB/RJ, explosões em redações de jornais e tiros disparados contra sedes de partidos políticos foram os atos finais do enterro da Ditadura. (1 e 2)


 

Fig. 270 (Escola das Américas /também conhecida como Escola dos Assassinos ).

 

Localizada inicialmente no Panamá e depois no Fort Benning, Columbus, Estado de Geórgia (EUA), a Escola das Américas foi criada para treinar militares dos países da America Latina e do Caribe, amigos do “Tio Sam”. O currículo dos cursos da Escola (também conhecida por “Escola dos Assassinos”) inclui matérias específicas sobre guerra psicológica, táticas anti-guerrilhas, contra-insurreição, técnicas de interrogatório e métodos de aterrorização. Estas duas últimas disciplinas - dotadas de uma criativa e sofisticada “metodologia” - ensinam os alunos a “subverter a verdade”, “intimidar e fazer calar”, “falar e silenciar” e outras “coisas” mais. Pelos bancos da Escola já passaram mais de 60 mil militares latino-americanos, dentre eles, 355 brasileiros. Entre os “bons” alunos estão dois ex-ditadores panamenhos, um chefe de esquadrão de morte em El Salvador, muitos militares golpistas do continente sul-americano e dezenas de torturadores brasileiros, listados no livro “Brasil Nunca Mais”. Para o governo dos Estados Unidos - que destina à instituição um orçamento anual de U$ 3,9 milhões - a Escola tem por objetivos: “a manutenção da democracia no continente, o combate ao narcotráfico e a divulgação da doutrina militar americana”. (3)


 

Fig. 271 (O milagre brasileiro/ Charge de Millôr Fernandes).


Fig. 271-A

Capitão norte-americano Charles Rodney morto por um grupo da VPR, em outubro de 1968. Era acusado de ser um agente da CIA.

Calcula-se que 97 pessoas foram assassinadas por organizações de esquerda no período do Regime Militar.


Fig. 271-B

Jornalista Vladimir Herzog. Assim o jornalista foi encontrado após várias sessões de interrogatório nas dependências do DOI-CODI. Versão oficial: suicídio.


Fig. 271-C

Embaixador norte-americano Charles Elbrick foi trocado por 15 presos políticos.


Fig. 271-D

70 presos políticos brasileiros são levados para o Chile. Foram pelo embaixador Giovanni Enrico Bucher, suíço.


Fig. 271-E

Local de conflitos de terras entre grileiros, fazendeiros e posseiros. O PCdoB quis aproveitar esse potencial para se fixar na região ( Mário Schmidt, op.cit.,p.340 ).


Fig. 271-F

Mapa mostrando dados sobre a guerrilha ( Brasil 500 Anos, Atlas Histórico, p.203, Editora Três, São Paulo, 1998 ).


Fig: 272 (Montagem de Nigro em cima de fotos 3x4).

Total de mortos conhecidos: 69. Cerca de 60 estudantes universitários participaram da luta. Idealismo .... sonho ?.


Fig: 272-A

Áurea e Lia. Torturadas e mortas na Guerrilha do Araguaia.


Fig: 272-B

Valquíria Afonso Costa(Val) foi a última guerrilheira no Araguaia. Depois de interrogada e torturada, foi morta a tiros na beira da cova, na Base Militar de Xambioá.


Fig: 272-C

Pedro Alexandrino(Pery), carregava sempre um facão. Ao ser preso, fio levado para a Base de Xambioá, onde foi torturado e morto. Antes do corpo ser jogado em um buraco, um soldado pegou o facão e enfiou no peito do morto.


Fig: 272-D

Osvaldo Orlando da Costa(Osvaldão), tinha 1,98 m. Era o guerrielheiro mais conhecido e procurado. Ao ser morto sua cabeça foi cortada. Seu corpo, içado por um helicóptero, foi exibido em vôos razantes.


Fig: 272-E

Nesta Base Militar(perto de Xambioá) foram enterrados os corpos de Osvaldão, Valquíria, Pery e Batista. Outra versão diz que, depois, as ossadas foram levadas para a serra das Andorinhas e ali transformadas em cinzas.


Fig: 272-F

Onde estão os corpos dos guerrilheiros? Há informações de que equipes de militares mandadas ao Araguaia abriram sepulturas, retiraram os corpos espalhados pela região e levaram-nos de helicóptero para a serra das Andorinhas, onde foram queimados em fogueiras de pneus carecas(Élio Gaspari, op. cit., p.462).

Fig: 272-G

Serra das Andorinhas, beira do rio Araguaia. Na encosta sul desta serra, ao lado de uma bonita palmeira, dezenas de corpos eram despejados por um helicóptero. Uma vez empilhados mortos, atiravam-se pneus velhos sobre eles e ateava-se fogo. Foi a "operação limpeza", realizada no fim de janeiro de 1975 (revista Veja, 13/10/1993).


Fig: 272-H

Estes seis moradores da região do Vale do Araguaia ainda estão vivos. Foram vítimas de torturas. Segundo eles, a população local tinha que colaborar com o Exército na base do dinheiro ou da pancada.

 

Um balanço geral da economia brasileira, no período dos governos militares, mostra que o Brasil cresceu de forma extraordinária. No governo de Médici, a taxa de crescimento atingiu 9% ao ano. Um crescimento econômico altíssimo. Mas quem ganhou com isso? Em primeiro lugar, as multinacionais, vez que grande parte das riquezas criadas no país foi surrupiada em forma de remessa de lucros para o exterior (liberada no início da Ditadura). Em segundo lugar, o grande empresariado industrial e comercial (incluindo aí a classe média alta) beneficiado com a imensa concentração de renda em suas mãos. E, igualmente, o próprio Estado autoritário que - afastado do social - preferiu investir em obras faraônicas (hoje, expostas à venda). O bolo cresceu: uma parte foi roubada e levada para o exterior; outra parte ficou com os ricos. Sobrou: endividamento externo, exclusão social, carnaval e futebol...


 

No somatório acima apresentado, só atrocidades e estupidez dos governos militares? E a ressistencia armada das organizações de esquerda, como ALN (Ação Libertadora Nacional), a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), o MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), a VAR/Palmares e o PC do B com suas ações violentas de assaltos a bancos, sequestros de diplomatas estrangeiros, “justiçamentos” (assassinatos de companheiros) e guerrilhas urbana e rural? Acima dessas duas questões (objeto de um julgamento simbólico da ditadura brasileira, realizado em Roma pelo Tribunal Bertrand Russel) pairam dois postulados universalmente aceitos: 1) Não existe clemência para quem tortura ou mata um ser humano. 2) Pessoas que lutam pelo ideal de libertação de seu povo não podem ser consideradas criminosas. O Projeto Brasil Urgente questiona: a resistência armada, deflagrada a partir de 1968, objetivava a redemocratização do Brasil? (Com a palavra os historiadores, pesquisadorse, professores e estudanets de História, intelectuais, jornalistas e militares).
(4,5,6 e 7)


Para manter a resistência, as organizações de esquerda assaltaram bancos, empresas e praticam audaciosas ações de seqüestros de diplomatas estrangeiros. A VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares) realizou (setembro de 1969) uma milionária operação de guerrilha urbana: o roubo (expropriação, para ela) de um cofre, recheado de dólares, atribuídos à caixinha de Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo. Disfarçados de policiais federais, um grupo de militantes adentrou na casa de Anna Capriglione, companheiro do ex-governador. No 2º andar da mansão, encontraram o cofre. Com uma corda, conseguiram descê-lo e colocá-lo numa camioneta Rural Willys. Em questão de minutos, consumava-se maior assalto das organizações esquerdistas brasileiras. No interior da “caixinha”: U$ 2.5 milhões. Outro feito de grande impacto da guerrilha urbana, foi o seqüestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick. A operação foi organizada e executada, em conjunto, pela ALN (Ação Libertadora Nacional) e VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). No dia 4 de setembro de 1969, o carro oficial do embaixador foi interceptado. O diplomata, com um leve ferimento na testa, foi conduzido numa Kombi para um esconderijo localizado num casarão alugado na Rua Barão de Petrópolis, Rio. O episódio terminou com a liberação do diplomata em troca da divulgação de um manifesto e da soltura de 15 presos políticos, levados para o México. No decorrer do ano de 1970, mais três seqüestros de diplomatas estrangeiros foram perpetrados. No dia 11 de março, o cônsul do Japão em São Paulo, Sr. Nobuo Okuchi, foi capturado em circunstâncias parecidas. O carro do cônsul japonês, um Oldsmobile, foi interceptado na Rua Alagoas, na altura da Praça Buenos Aires, por um Volkswagen conduzido por militantes da VPR. Transportado para outro volks, o cônsul foi levado para um esconderijo na Avenida Ceci, em Indianápolis. Foi libertado após cinco presos viajarem para o México. No dia 11 de junho, por volta das 20 horas, no bairro de Santa Tereza, Rio, o Mercedes do embaixador da Alemanha, Sr. Ehrenfried von Holleben, foi abalroado e metralhado. Sob tiroteio, o embaixador foi retirado do carro e colocado dentro de um caixão de madeira no interior de uma Kombi. Meia hora depois, estava enclausurado num cativeiro, no bairro de Cordovil. A ação, rápida e violenta, deixou no local um agente federal morto e dois seguranças gravemente feridos. A ALN assumiu a paternidade do feito. Quatro dias depois, enquanto o embaixador era libertado na Tijuca, 40 presos políticos viajavam num avião da Varig para a Argélia. Outra ação, também violenta, resultou no seqüestro do embaixador Giovanni Enrico Bucher, suíço. Na manhã do dia 7 de dezembro, o embaixador, um bem humorado solteirão de 57 anos, rumava tranqüilamente no seu Buick azul para o escritório da embaixada, na Glória. Sentado no banco traseiro, escoltado por um agente federal, Bucher fazia o itinerário de sempre, desobedecendo a orientação dos órgãos de segurança. Talvez, imaginasse que o representante de um pequeno país, tradicionalmente neutro, não fosse alvo de seqüestro. Carlos Lamarca e outros experimentados membros da ALN, responsáveis pelo planejamento e execução da operação, apostavam nessa conjetura. Acertaram. No local pré-determinado, o potente Buick foi barrado. Troca de tiros. O agente federal foi alvejado mortalmente. O motorista escapou, correndo para um prédio próximo, em construção. O embaixador foi retirado bruscamente e transportado num fusquinha para um pequeno aparelho, na Rua Paracatu, em Rocha Miranda. Para liberar o embaixador, os seqüestradores exigiram: a divulgação de um manifesto, passagens gratuitas para o povo carioca nos trens suburbanos durante dois dias e asilo político para 70 presos, no México, Chile ou Argélia. Depois de longas e tensas negociações, durante mais de trinta dias, o Governo Militar cedeu apenas na última exigência. Na madrugada do dia 16 de janeiro de 1971, o embaixador foi deixado no bairro da Penha. 70 presos, dentre eles 24 militantes da VPR, desembarcaram no Chile.


Início dos anos 70. Na região do Bico do Papagaio, divisa dos Estados do Pará, Maranhão e Tocantins, o PCdoB (vinculado à linha socialista chinesa) monta uma base de guerrilheiros. Os primeiros combatentes, membros do Partido, chegam a partir de 1966. Somavam 15 pessoas, aproximadamente. Sete, pelo menos, tinham curso de capacitação na China. Disfarçados, fazem paciente trabalho de assistência e conquista dos moradores. Fins de 1971 e começo de 1972. Aparecem os jovens universitários. Cerca de 60, entre eles, 14 mulheres. Numa faixa de 130km, ao longo do Rio Araguaia, organizam três Destacamentos (A, B e C), cada um com 20 combatentes aproximadamente, sob o comando de uma Comissão Militar, composta por quatro membros do PCdoB. Cada guerrilheiro tinha um revólver com 40 balas. Ao todo, o poder de fogo do Grupo incluía 4 submetralhadoras e 63 armas longas, dentre elas, 30 espingardas, algumas carabinas, fuzis e rifles. Parte desse armamento de fabricação caseira, funcionando precariamente. A cada dia, às 20 horas, os “paulistas” (como eram conhecidos) ouviam entusiasticamente um programa radiofônico, transmitindo em português, diretamente da Albânia, exaltando a luta armada no Brasil. Nos lugarejos, eles se dedicavam ao trabalho de “conquista” das massas. Esse era o propósito inicial. Depois, a “incorporação” da população e a “luta”. Na avaliação do Partido, o núcleo de Araguaia formaria o embrião de um “Exército Popular”, que se estenderia para outras regiões do país. “Com o tempo, numa luta dura e prolongada, se poderia criar uma vasta zona conflagrada”. E daí, uma zona liberada. Esse, o Projeto Revolucionário do PCdoB. Antes de completarem seus quadros, foram denunciados e descobertos. Abril de 1972. Os “paulistas” são surpreendidos por tropas das Forças Armadas. Recuam para seus refúgios nas matas. Uma grande manobra militar (II Exército, Aeronáutica e PM/PA) marca presença na região, durante vinte dias. Cenário de guerra. Aviões e helicópteros sobrevoam a floresta. Barcos da Marinha circulam nos rios e igarapés. Soldados montam barreiras por toda parte. A população fica assustada. Uma operação para impressionar. Numerosa e inútil. No resto do Brasil, ninguém sabia direito o que acontecia. A Censura Federal abafava tudo. Com a saída das Tropas, os paulistas reiniciam seus contatos com as massas. Lançam o Comunicado 1 das Forças Guerrilheiras do Araguaia (25 de maio), de conteúdo antiditatorial. Criam a União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP), com um programa de 27 pontos, buscando o apoio da população. O material era mimeografado (em reco-reco) ou escrito à mão. O grosso da população local simpatizava com os “paulistas”, porém poucos camponeses se uniram ao movimento. A Direção do Partido, lá em São Paulo, recebeu e ignorou um pedido de mais gente. Pela primeira e única vez, a guerrilha aparece na imprensa (dias 24 e 26 de setembro) no Estado de São Paulo e no The New York Times. Isso intranqüilizava o Governo Militar. Outubro. Início das chuvas. Nova operação militar, apelidada de Sucuri, nome da cobra que engole suas presas. Os militares empregam a mesma tática inicial dos guerrilheiros, o disfarce. Usam nomes falsos, compram terras e bodegas. Um “civil” se faz passar por funcionário do INCRA. Outro vendeu munição aos guerrilheiros para não levantar suspeitas. Um “forasteiro”, passando por agricultor, chegou a participar de uma reunião convocado pelos paulistas para discutir o funcionamento de uma escolinha local. Falsas empresas agropecuárias são montadas para facilitar o levantamento da área. Mateiros, hábeis conhecedores das matas, são contratados para rastrear os passos dos guerrilheiros. Pronto. A Sucuri dá o bote: ocupa estradas, sedes de fazendas, castanhais e a aldeia dos índios Suruí. Para eliminar fontes de abastecimento, queima roças, paióis de milho e depósitos de castanhas. Soldados prendem, interrogam e torturam moradores locais. Estima-se que mais de oitocentos moradores do Vale do Araguaia, suspeitos ou não, foram parar em prisões improvisadas. Os aprisionados eram amontoados em buracos abertos no chão, cobertos por grades ou em grandes fossos cercados de arame farpado. Na hora do "rango", os detidos antes de receberem a comida eram obrigados a cantar: “É um tal de soca soca / É um tal de pula pula / Quem tem culpa se enrrola / Quem não tem logo se apura”. Quem errasse a cantoria, apanhava. A cabeça de um guerrilheiro valia prêmios. Com o dinheiro da “entrega”, o colaborador podia comprar um pedacinho de terra. Quem morria, sumia. Dezoito “paulistas”, presos ou mortos, desapareceram. O restante do Grupo, internado nas matas, aqui e acolá, fustigava. Segue-se um ano de trégua. A Guerrilha intensifica o trabalho político-ideológico junto às massas. Edita cartas, manifestos e faz divulgar o cordel “A Vida de um Lavrador”, de um militante. Cerca de onze camponeses se incorporam à luta. De ações concretas da guerrilha, sabe-se de: (1) Uma operação do Destacamento B, em março de 1973, contra um informante do Exército. Foram apreendidas armas, roupas, comestíveis e remédios. O informante foi executado. O Destacamento B também executou um mateiro, que auxiliava as Tropas. (2) Uma invasão realizada pelo Destacamento C, em agosto, da fazenda de um colaborador dos militares. Os guerrilheiros confiscaram 400 cruzeiros, um revólver, roupas, alimentos e medicamentos. (3) Um ataque a um Posto da PM/PA, na Transamazônica, em setembro, pelo Destacamento A. Foram apreendidas armas, roupas e alguma munição. (4) O “justiçamento”, execução, em setembro, de um militante do Destacamento C, que desejava voltar para casa. Outra versão diz que a morte foi causada por um acidente com arma de fogo. Outubro de 1973. Novamente debaixo de chuvas, tem início a terceira caçada aos “homens das matas”. Sob a chefia do CIE (Centro de Informação do Exército), as Tropas entram na selva num movimento em forma de arco para evitar fugas. A ordem é "matar, não fazer prisioneiros". "Trucidar, não deixar pistas", no léxico dos irmãos fardados. Acrescentaram: "torturar, decepar cabeças, ocultar cadáveres". Todos os guerrilheiros, 56 ao todo, ficam acuados (no planejamento da guerrilha, o Partido não considerou a alternativa da retirada. Era ficar e morrer). Numa armadilha, no Natal de 1973, caem 23 guerrilheiros. São exterminados. Segue-se no calcanhar dos remanescentes. Perdidos na selva, famintos e maltrapilhos são abatidos, um a um. Alguns corpos são degolados e enterrados em locais não revelados. Outros são queimados para não deixar vestígios. Final do ano de 1974: 59 guerrilheiros e 10 moradores locais mortos. Sete presos e sete desertores (incluindo um importante integrante da Comissão Militar da Guerrilha) sobreviveram. Valeu a pena? Para o lado dos militares (que até hoje não querem dizer onde estão os corpos dos guerrilheiros), vitória da ideologia oficial do Regime Militar. A vida do oponente tornava-se irrelevante diante de um objetivo “relevante”: a eliminação do comunismo no Brasil. Para o PCdoB (que não acudiu nem reforçou o efetivo dos combatentes), retórica gloriosa do Partido. Um balanço considerando que o resultado da Guerrilha do Araguaia foi “altamente positivo” e comemorações do tipo: “Fraternais e entusiásticas saudações de combate” ou “Vivam as Forças Guerrilheiras do Araguaia”, feitas pela liderança do Partido, depois, confirmam o dito discurso. Para os estudantes (que abandonaram o Lar e a Universidade acreditando num "Projeto Revolucionário"), fica, para reflexão, a frase de uma militante, ex-estudante de geografia, 22 anos, que antes de partir para a luta disse para seus pais:só nos resta este caminho e é com amor que vamos percorrê-lo.
(8,9,10,11,12,13,14,15 e 16)


 

 

 

 

NOTAS:

  1. Os DOI-CODIs, ou órgãos semelhantes, agiam impunemente. Tinham a sua própria lei. E não respeitavam as do país, nem mesmo os prazos processuais estabelecidos pela própria legislação de Segurança Nacional. As pessoas eram interrogadas encapuzadas. Seus interrogadores usavam codinomes ou apelidos e não se identificavam aos presos. Dificilmente haverá pessoas que tenham passado por eles sem terem sido torturadas” (Brasil Nunca Mais, p. 73, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1985).



  2. O leque das vítimas vai muito além da esquerda armada. Abarca estudantes, intelectuais e artistas, religiosos, áreas do movimento sindical e comunitário e a oposição, mesmo legal(...) Os desaparecidos políticos são presos presumivelmente torturados até a morte ou executados. Incluem todo o espectro político-ideológico e social das oposições. O projeto Brasil Nunca Mais conta 125 desaparecidos, 69 deles na Guerrilha do Araguaia. O governo, reconhece 138 em 28/7/85, mas os órgãos de segurança mantém a negativa em localizar os corpos. Outros mortos pela repressão são “suicidados”, “atropelados ao tentarem a fulga” ou tombam em “combates forjados” (Brasil / 500 anos, Atlas Histórico, p. 193, Editora Três, São Paulo, 1998).



  3. A lista dos principais alunos brasileiros que passaram pela Escola das Américas(School of Americas Watch) está no site:
    http://www.soaw.org/new/article.php?id=233



  4. Descontando-se os guerrilheiros do Araguaia, morreram em torno de duzentos quadros das organizações armadas que atuaram nas cidades. Essas organizações mataram 36 agentes anônimos da ordem. Boa parte deles eram soldados e cabos das polícias militares. Estavam na base da pirâmide social, mas sustentavam a ordem da ditadura. O mesmo não se pode dizer de cerca de quinze guardas de bancos, carros-fortes e estabelecimentos comerciais. Morreram na cena das ações terroristas pelo menos outras dez pessoas que nada tinham a ver com a segurança dos locais onde estavam. Eram bancários, comerciantes ou mesmo um cobrador de ônibus. Num cálculo conservador excluindo-se casos em que as pessoas possam ter sido atingidas por tiros disparados pela polícia as mortes ligadas a ações terroristas ficam em torno de setenta. A esse número devem-se somar onze vítimas deliberadamente selecionadas, como foi o caso de Boilesen. Pode-se estimar que, para cada cinco mortos na esquerda ligada a ações armadas nas cidades, essa mesma esquerda matou duas pessoas. (A Ditadura Escancarada, p. 396, Elio Gaspari, Editora Companhia Das Letras, São Paulo, 2002).



  5. O livro Brasil Sempre, que analisa atuação de organizações de esquerda no Brasil, relaciona nome por nome 97 pessoas (entre militares, civis e outros) mortas pela subversão entre 1964 e 1974 (Brasil Sempre, p. 39/54, Marco Pollo Giordani, Editora Tchê, Santa Maria/RS, 1986).




  6. Em 1º de Abril de 1974, na sessão do tribunal Bertrand Russel, foram apresentados testemunhos patrocinados pelo Comitê Italiano da Amnesty International. Entre os depoentes estavam Miguel Arraes, Fernando Paulo Nagle Gabeira, Dulce de Souza Maia, Carlos Figueiredo de Sá, Jean Marc Friederich Van Der Weid , Frei Tito de Alencar Lima, ângelo Pezutti, ONofre Pinto, Gregório Bezerra e Thiago de Melo...todos comprometidos com a subversão e muitos deles envolvidos nas campanhas de propaganda contra o Brasil. O resultado dessa sessão poderia ter sido escrito muito antes de sua realização (A Grande Mentira, p. 459, Agnaldo Del Nero Augusto, Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 2001).




  7. Em janeiro de 1975, após analisar um extenso informe de um professor brasileiro da Universidade de Vincennes, ligado à ALN, o Tribunal Bertrand Russel condenou o Brasil. Durante a sessão, além do Brasil foram julgados o Chile, o Uruguai e a Bolívia, acusados de violação dos direitos fundamentais do homem. Os quatro países foram condenados e considerados culpados de crimes contra a humanidade (Agnaldo Del Nero Augusto, op.cit., p.459).



  8. A idade média dos guerrilheiros estava abaixo de trinta anos. Cerca de 70% de seu efetivo era composto por estudantes que haviam tomado as ruas em 1968. Mais da metade havia abandonado as universidades. Em pouco mais de três anos, no meio da juventude, saltaram da militância urbana para a clandestinidade. Dela, para o grande sonho da guerra popular amazônica. Cinco passaram por faculdades de medicina. Três estudaram física e um deles, astronomia. Duas jovens abandonaram os cursos de letras, uma das quais matriculada nas cadeiras de alemão e japonês. Outro tinha três anos de química e um de teoria musical, o que o tornaria flautista do grupo. Dois guerrilheiros estiveram na diretoria da UNE. Outro presidira a União Paulista dos Estudantes Secundários e pagara dois anos de cárcere. Cinco haviam sido presidentes dos diretórios acadêmicos de suas faculdades. Dezesseis passaram pela prisão, sete deles no grande arrastão de Ibiúna (Elio Gaspari, op. cit., p. 410).



  9. Dezesseis mulheres foram para o Vale do Araguaia. Todas muito jovens, a maioria universitária e com militância anterior no movimento estudantil de seus Estados de origem. Doze morreram na guerrilha. Duas foram presas, logo no início, e duas outras, grávidas, desertaram (Mulheres que foram à luta armada, pp. 439 / 478, Luiz Maklouf, Editora Globo, 1998).



  10. "A região do Araguaia oferece condições propícias. É zona de mata, e na mata o inimigo não pode usar tanques, artilharia, bombardeio aéreo de precisão, etc. Tem de estar a pé como o guerrilheiro. É uma zona de massa pobre e explorada(frente pioneira de penetração da massa camponesa sem terra), circundada por povoados e cidades pequenas e médias também de grande pobreza. Dispoõe de caça abundante, castanha-do-pará, babaçú e outros meios de alimentação..." (Relatório sobre a luta armada no Araguaia, Ângelo Arroyo, in Araguaia, o Partido e a Guerrilha, documentos inéditos, p. 275, Wladimir Pomar, Editora Brasil Debates, São Paulo, 1980).



  11. O PC do B fixara-se no Araguaia seguindo uma linda política e atendendo a uma necessidade prática. Sua defesa da luta armada era anterior à ditadura. Era também exclusiva. Rejeitara a idéia do foco (“concepção voluntarista”) e o conceito de revolução continental (“estranha ao marxismo-leninismo”). Não tinha negócios com Havana, muito menos com Moscou (“camarilha de renegados”). Entre 1964 e 1968, os chineses haviam-lhe dado dezoito vagas em seus cursos de capacitação militar, mas desde o ano seguinte suas relações com Pequim estavam frias (Elio Gaspari, idem, p. 408).



  12. Depois de um ano de disciplina, no final de 1971 os guerrilheiros conseguiram organizar uma manobra com um efetivo de dezenove pessoas. Alguns estavam treinados a ponto de saírem em pequenos grupos para jornadas de um mês na floresta, levando apenas suas armas, sal, farinha e munição. Adestravam-se para sobreviver. Estocavam alimentos, remédios e munições em pontos esparsos na mata. Viviam compartimentados. Um grupo não sabia onde estava ou o que fazia o outro (Elio Gaspari, idem, p. 412).



  13. O governo descobriu o projeto guerrilheiro do PC do B no início de 1972. Soube disso por duas fontes diferentes. Não se pode dizer qual foi a primeira. Em novembro de 1971, o guerrilheiro Peri (Pedro Albuquerque) e sua mulher fugiram da mata. Em janeiro de 1972 ele viria a ser preso em Fortaleza. Um relatório do CIE atribui-lhe a indicação do fio da meada que levou os militares ao Araguaia. (Albuquerque sustentou que seus torturadores já tinham conhecimento da estrutura do PC do B na região). A outra pista veio ao Sul. A guerrilheira Regina, mulher de Lúcio Petit da Silva, contraíra hepatite e brucelose. Também em novembro, fora levada a Anápolis e internada. Deveria retornar, mas foi para São Paulo. Manteve-se em contato com o partido e chegou a repassar-lhe alguns remédios. Pressionada pela família, revelou ao Exército aquilo que sabia da “área prioritária” (Elio Gaspari, idem, p. 413).



  14. O Exército oferecia mil cruzeiros por “paulista” capturado. Era dinheiro suficiente para a compra de um pequeno pedaço de terra. Esse tipo de incentivo, associado à intimidação, levou um camponês a denunciar um guerrilheiro com quem tinha boas relações (Elio Gaspari, ibidem, p. 419).



  15. Passados quase trinta anos do aniquilamento da guerrilha do Araguaia, a reconstrução do que sucedeu na floresta a partir do Natal de 1973 é um exercício de exposição de versões prejudicadas pelo tempo, pelas lendas e até mesmo pela convivência das narrativas. Delas, a mais embusteira é a dos comandantes militares que se recusam a admitir a existência da guerrilha e a política de extermínio que contra ela foi praticada. Nunca revelaram suas baixas. Reconheceram a morte do sergento Mário Abrahim e do cabo Odílio, mas nunca revelaram o nome de um soldado morto na Bacaba por um disparo acidental. Pode-se estimar que seus mortos girem em torno de dez (Elio Gaspari, ibidem, p. 453).



  16. Na guerra popular do PC do B pereceram 59 quadros levados para o Araguaia. Suas famílias foram indenizadas pelo Estado. Quase todos tornaram-se nome de pelo menos uma rua, no município de Campinas. Alguns, de t rês. Morreram também cerca de dez moradores do Araguaia (Elio Gaspari, ibidem, p. 461).


O Projeto Brasil Urgente disponibiliza, para pesquisa e estudos, os seguintes livros: (1) Brasil Sempre, de Marco Giordani. Uma análise da atuação de comunistas e organizações de esquerda no Brasil. Visão de um oficial do Exército Brasileiro. (2) Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo. Um relato das torturas no Regime Militar. Visão acusatória. (3) A Ditadura Escancarada, de Élio Gaspari. Mostra a atuação dos movimentos esquerdistas durante o Regime Militar. Visão jornalística, crítica. (4) Relatório sobre a luta de Araguaia, de Ângelo Arroyo. Descrição minuciosa dos fatos ocorridos na guerrilha do Araguaia. Visão de um guerrilheiro. (5) Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf Carvalho. Depoimentos de mulheres que participaram da luta armada no Brasil durante o Regime Militar. Visão jornalística, reflexiva

  • FILMOGRAFIA

    Que é isso companheiro. Direção: Bruno Barreto. Roteiro baseado no livro do jornalista e político Fernando Gabeira, um dos participantes do seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick. O filme é um retrato quase fiel do seqüestro.

    Anos Rebeldes. Direção: Denis Carvalho. Minisérie. 3 DVDs. Rede Globo. Mostra os movimentos rebeldes dos anos 70. Uma mistura de ficção e realidade.

     

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