WWW.EXPO500ANOS.COM.BR

⬅ Voltar



Fig. 300 (A confissão de uma religiosa )

 

NOSSA RELIGIOSIDADE É FATOR DE ATRASO  ?

Fiéis à Igreja Católica, os portugueses para cá transladaram, desde o início da colonização, os padres jesuítas e elegeram a Companhia de Jesus para o monopólio do ensino no Brasil. Assim, sob o jugo do poder colonial e da orientação papal, sedimentou-se a educação cristã do povo brasileiro. O exemplo das missões (onde o gentio era obrigado a abandonar suas crenças e se converter ao cristianismo), das preceptoras (cujas aulas domiciliares eram direcionadas para a educação católica), dos seminários e, mais tarde, dos colégios de freiras (incluindo obrigatoriamente o ensino religioso em seus currículos) contribuíram infinitamente para a formação da religiosidade do povo brasileiro. Essa herança católica - profundamente enraizada na alma nacional - sustentou e influenciou, por muito tempo, a cultura da nossa sociedade. Fator de atraso (comparando-se com o desenvolvimento de outros povos colonizados por protestantes) ou motivo para a constituição de uma sociedade conformista, passiva e submissa? Dos inúmeros estudos e teses acadêmicas sobre o assunto (nenhuma respondendo satisfatoriamente a questão), extraímos três pontos para reflexão: 1) A ética católica - diferentemente da doutrina dos países reformistas - condenava moralmente o lucro. 2) Para Portugal escravizar seres humanos, sem ferir a moral cristã, o Papa edita uma bula reduzindo o nativo fricano à condição de mercadoria. 3) No Brasil, até o final da monarquia, só católicos podiam exercer cargos públicos.


 


Fig. 301 ( Ontem e Hoje )

 

IMPROVISAÇÃO: ELEMENTO REVELADOR DA IDENTIDADE DO NOSSO POVO

Outro componente revelador da identidade de nosso povo é a improvisação, correlata de outras manifestações bem brasileiras (impontualidade, indisciplina e tendência à lamentação). Esse modo peculiar, nas acepções de dar um jeitinho e quebrar o galho, surge normalmente nos hábitos cotidianos do brasileiro, como se fosse padrão ético de comportamento. Na política, o jeitinho brasileiro funcionou (e funciona) como uma "técnica de valorização da esperteza", como ficou demonstrado nos golpes de 1889, 1930, 1937 e 1964, cujas "dinâmicas" foram as mesmas: conciliar interesses conservadores e manter as elites no Poder. Na área econômica, desde o início da República até hoje, as metas, os programas ou planos econômicos, quase sempre, são forneados à base da improvisação. Nas repartições públicas, nos fóruns e tribunais do país que tem mais de um milhão de leis socialmente injustas, o jeitinho aparece em forma de artifícios jurídicos e outros expedientes (quando se trata de um "Doutor"); lá embaixo, onde estão as massas, serve a fórmula romana "dura lex sed lex", ou seja, os rigores da lei (quando se trata de "alguém sem ninguém"). Ou, como dizia o historiador Capistrano de Abreu, no Brasil só existem duas leis: o "Código Civil para os ricos e o Código Penal para os pobres".


 

Fig. 302 ( O silêncio do juiz “Lalau” )

 

POR QUE O NOSSO POVO NÃO ACREDITA NOS GOVERNANTES  E NAS LEIS DO PAÍS  ?

O orgulho nacional de um povo (incluindo aí o dever cívico, a disciplina coletiva, o amor ao trabalho e outros valores) espelha-se em paradigmas, passados e presentes. Um exemplo de orgulho nacional, no caso, do povo alemão: Frederico II, ao concluir seu palacete, não podia contemplar a bela paisagem das redondezas em razão de um moinho de propriedade de um camponês, seu vizinho. O rei ameaçou demolir o moinho. Diante das ameaças e pressões, o humilde camponês arrematou: "ainda há juizes em Berlim" (até hoje, o moinho ali se encontra, perto de Potsdam). Aqui no berço esplêndido, apenas alguns exemplos: 1) Ao chegar no brasil, d. João VI exigiu, para sua família e toda a imensa comitiva, a desocupação imediata das melhores residências do Rio de Janeiro (quem não entregasse sua casa, no prazo de 24 horas, era posto na rua com todos os pertences). 2) Constituição Imperial de 1824: descumprida em 1840 para acomodar no governo um menino com apenas 14 anos de idade. 3) Primeira Constituição Republicana: violada para um vice-presidente militar continuar no poder, sem eleições presidenciais: 4) Mentira do Plano Cohen: um pretexto "fabricado" pelos militares para Getúlio Vargas dar o golpe de 1937. 5) Constituição Cidadã de 1988: não regulamentada em dezenas de artigos para não mexer nos privilégios das classes dominantes. Resta acreditar na carta de Pero Vaz de Caminha, quando o verboso escrivão compara a Terra dos Papagaios com "hum verdadeiro parayso".



 

Fig. 303 ( Antonio Conselheiro, líder de Canudos)

 

O POVO BRASILEIRO É PACÍFICO  ?

Outro elementro do caráter nacional brasileiro (plasmado por ideólogos do poder) é a vocação pacífica do povo brasileiro. Essa "verdade estabelecida" (utilíssima às classes dominantes) segue a moldura oficial da história escrita pelos vencedores (com Cabral rezando, Pedro I gritando, Isabel abolicionando, Caxias pacificando ou marechais proclamando) sem considerar que o povo brasileiro sempre lutou (e continua lutando) por liberdade e justiça social. Neste outro lado da História (sem monumentos, está tuas ou condecorações), estão muitas revoltas, massacres e traições. Entre elas, a resistência indígena contra o invasor de suas terras; a heróica luta dos negros de Palmares, onde cerca de 20 mil escravos foram abatidos; o massacre de Cabanagem vitimando cerca de 40% da população da Província do Pará; a luta traída de Porongos, em que os comandantes "adversários" (Caxias e Canabarro), numa batalha "arranjada", colocaram cerca de dois mil negros frente a frente para se matarem; e ainda, a brutal repressão aos movimentos de Canudos e Contestado, resultando no genocídio de mais de 40 mil humildes sertanejos. São cinco séculos de batalhas cruentas. No passado, o extermínio de milhões de índios, a exploração do trabalho escravo e o afastamento do povo das decisões nacionais. No presente, a manipulação da imensa população miserável do país.


 

Fig. 304 ( O silêncio do juiz “Lalau” )

 

FUTEBOL E CARNAVAL: ALEGRIA DO POVO BRASILEIRO

O traço mais importante da nossa brasilidade é a alegria, traduzida com maior expressividade na gozação do carioca, nas festividades baianas, na cordialidade do paulista, no humor do cearense e no sorriso bonito da mulher gaúcha. A nível nacional, duas grandes festas populares - o carnaval e o futebol - sintetizam e nivelam o pendor lúdico do povo brasileiro. Com relação à estas (já enraizadas no temperamento nacional), temos a considerar os seguintes aspectos: a) O carnaval e o futebol, como ritos nacionais, servem para "extasiar" as massas populares e ao mesmo tempo criar um sentimento de conformismo diante dos graves problemas sociais do país; b) O sentido democrático do carnaval - onde todos são iguais perante a alegria - permite temporariamente a transmudação (projeção de pobres em ricos) e a neutralização (desaparecimento de convenções sociais) dando a ilusão de que todos são iguais numa sociedade desigual, fechada e elitista; c) a mídia brasileira (em busca de audiência) e as "empresas" futebolísticas (em busca de dinheiro) estimulam jogos e mais jogos, "fabricam" super-heróis e transformam inverdades em mitos para manter o ardil reforçador de que "somos os melhores do mundo". E nisso, o substraum psicológico do orgulho nacional.



 

 

CRÉDITOS DAS IMAGENS: Fig. 300 ( Charge de Augusto Rodrigues para Caricaturistas Brasileiros. Editora Sextante Artes ). Fig. 298 ( Nova História Crítica do Brasil / 500 anos de história malcontada, de Mário Schmidt. Editora Nova Geração ). Fig. 299 ( Ilustrção de J. C. Linhares ). Fig. 300
( Iconografia in Quem é Quem na História do Brasil. Almanaque Abril / São Paulo / 2000 ).